A cultura de massa no banco dos réus
As acusações contra a cultura de'massa, quando
sustentadas por agudos e atentos escritores, têm uma
função dialética própria dentra de uma discussão sôbre
o fenômeno. Os pamphlets contra a cultura de massa
são, portanta, lidos e estudados camo documentos a
inserir numa pesquisa equilibrada, levando-se em conta,
porém, os equívocos que, não raro, Ihes residem na
base.
Na verdade, a primeira tomada de posição sôbre
o problema foi a de Nietzsche, com a sua individua-
ção da "`enfermidade histórica" e de uma de suas fór-
mas mais aparatosas, a jornalismo. 4u melhor, no filó-
sofo alemão já existia em germe a tentação presente a
tôda polêmica do gênera: a desconfiança ante o igua-
Lztarismo, a ascensãa democrática das multidões, o
discurso feito pelos fracos para os fracos, o universo
construída não segundo as medidas do super-homem,
mas do homem comum. Parece-nos que é a mesma
raiz que anima a polêmica de 4rtega y Gasset; e certa-
mente não é sem motivos buscarmos na raiz de cada
ato de intolerância para com a cultura de massa uma
raiz aristocrática, um desprêzo que só aparentemente
se dirige à cultura de massa, mas que, na verdade,
aponta contra as massas; e só aparentemente distingue
entre massa como grupo gregário e comunidade de
indivíduos auto-responsáveis, subtraídos à massificação
e à absorção em rebanho; porque, no fundo, há sempre
a nostalgia de uma época em que as valores da cultura
eram um apanágio de classe e nãa estavam postos,
indiscriminadamente, à disposição de todos.
Mas nem todos os críticos da cultura de massa
são classificáveis nesse filão. Sem falarmos em Adorno,
cuja posição é por demais conhecida para que a te-
nhamos de trazer à baila, pensemos em tôda a multidão
de radicals narte-americanos que conduzem uma feroz
polêmica contra os elementos de massificação pre-
sentes no corpo social de seu país; sua crítica é in-dubitàvelmente progressista nas intenções, e a descon
dubitàvelmente progressista nas intenções, e a descon-
(3) Sbbre o caráter classista de certo tipo de polémica cf tambm
Uoo Seisrro, "Cultura per pochi e cultura per tutti" In: Culturo c sotto-
culturo, op. cit.
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#fiança em relação à cultura de massa é, para êles,
desconfiança em relação a uma forma de poder inte-
lectual capaz de levar os cidadãos a um estado de
sujeição gregária, terreno fértil para qualquer aventura
autaritária. Exemplo típico é o de Dwight MacDanald
que, nos anos 30, formou nas posições trotskistas, e
portanto, pacifistas e anárquicas. Sua crítica representa,
talvez, c ponto mais equilibrado que se alcançou no
âmbito dessa palêmica, e como tal, vai citada.
MacDonald parte da distinção, agora canônica ,
dos três níveis intelectuais, high, middle e lowbrorv
(distinção que deriva daquela entre highbraw e low-
braw, proposta por Van Wyck Brooks, em America's
Coming of Age), mudanda-Ihes a denominação de acôr-
do com um intenta polêmico mais violento: contra as
znanifestações de uma arte de elite e de uma cultura
pròpriamente dita, erguem-se as manifestações de uma
cultura de massa que não é tal, e que, par isso, êle não
chama de mass culture, mas de masscult, e de uma
cultura média, pequeno-burguesa, que êle chama de
midcult. Òbviamente, sãa masscult as estórias em qua-
drinhos, a música gastronômica tipo rock'n roll, ou
os piores filmes de TV, ao passo que o midcult é re-
presentada por obras que parecem possuir todos. os
requisitas de uma cultura procrastinada, e que, pelo
contrária, constituem, de fata, uma paródia, uma de-
pauperação da cultura, uma falsificação realizada com
fins comerciais. Algumas das mais saborosas páginas
críticas de MacDonald são dedicadas à análise de um
romance como O Velho e o Mar, de Iemingway, que
êle considera um típico produto de midcult, com a sua
linguagem propasitada e artificiasamente liricizante, e
a tendência para configurar personagens "universais"
(mas de uma universalidade alegórica e maneirística);
e no mesmo plano, êle coloca Nossa Cidaúe, de Wilder.
Esses exemplas esclarecem um dos pantos subs-
tanciais da crítica de MacDonald: não se censura à
cultura de massa a difusão de pradutos de ínfimo nível
e nulo valor estético (coma poderiam ser algumas
estórias em quadrinhas, as revistas pornográficas ou as
programas de perguntas e respostas da TV ) ; censu-
ra-se ao midcult o "desfrutar" das descobertas da van-
guarda e "banalizá-las", reduzindo-as a elementos de
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#consumo. Crítica essa que acerta no alvo e nos ajuda
a campreender por que tantos produtos de fácil saída
comercial, embora ostentando uma dignidade estilística
exterior, no fim das contas saam falso; mas essa crítica,
no fim das contas, reflete uma concepção fatalmente
aristocrática do gôsta. Deveremos admitir que uma
soluçãa estilística seja válida ùnicamente quando re-
presenta uma descoberta que rompe com a tradiçâo e
é, por isso, partilhada por poucos eleitos? Admitidc
o fato, uma vez que determinado estilema chegue a
penetrar num circuito mais amplo e a inserir-se em no-
vos contextos, perde, com efeito, tôda a sua fôrça, au
conquista nova função? Pôsto que há uma funçâo,
será ela fatalmente negativa, ista é, servirá agora o
estilema, ùnicamente para mascarar sob uma pátina de
novidade formal uma banalidade de atitudes, um com-
plexo de idéias, gostos e emoções passivos e esclero-
sados?
Ventilou-se aqui uma série de problemas que, uma
vez focalizados teòricamente4, deverão submeter-se a um
complexo de verificações concretas. Mas, diante de cer-
tas tomadas de posição, nasce a suspeita de que o crítico
constantemente se inspira num modêlo humano, que,
mesmo sem êle o saber, é classista: o modêla de um
fidalgo renascentista, culto e meditativo, a quem uma
determinada condição econômica permite cultivar, com
amorosa atenção, as próprias experiências interiores,
preservando-as de fáceis comistões e garantindo-lhes,
ciosamente, a absoluta originalidade. Mas o hamem de
uma civilizaçãa de massa não é mais êsse homem. Me-
Ihor ou pior, é outro, e outros deverão ser os seus
caminhos de farmação e salvaçãa. Individuar êsses ca-
minhos, eis, pelo menos, um dos objetivos. O problema
seria diferente se os críticos da cultura de massa (e
entre êsses há quem pense dêste mobo, e entãa a dis-
curso muda) considerassem que o problema da nossa
civilização é o de levar cada membra da comunidade
à fruiçãa de experiências de ardem superior, dando a
(4) Cf. DwmEt'r MncnoNLn, Against the American Grain Random
House, New York, 1%2; partindo do capLtulo Masscuit & Midcult, que
resume t8das as posições polmicas do A., procuraremos, no ensaio A
estrutura do mau g8sto, elaborar alguns instrumentos metodológicos para
uma impostação mais rigorosa do problema.
(ECO, 2005, p. 33 - 38).
Bibliografias
ECO, Umberto,
Apocalípticos e Integrados
Umberto Eco
# Coleção Debates
Dirigida por J. Guinsburg
Conselho Editorial: Anatol Rosenfeld, Anita Novinsky, Aracy Amaral, Boris Schnaiderman,
Celso Lafer , Gita K. Ghinzberg, Haroldo de Campos, Rosa Krausz, Sábato Magaldi e
Zulmira Ribeiro Tavares.
Equipe de realização: Pérola de Carvalho, tradução;
Geraldo Gerson de Souza, revisão; Moysés Baumstein,
capa e trabalhos técnicos.
#Título do original:
A pocalittici e Integrati, 2005.
As profecias de Umberto Eco
Semioticista italiano, que completaria 90 anos, publicou em 2006 livro de ensaios que antecipa preocupação com o fluxo incontrolável de informações
Por Dirceu Alves Jr. — Para o Valor, de São Paulo
28/01/2022
https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/01/28/as-profecias-de-umberto-eco.ghtml
A presente análise discore sobre as distinções conceituais entre realidade, verdade e ideologia a partir de uma abordagem filosófica e crítica, articulando contribuições da epistemologia científica, da tradição platônica, da sociologia do conhecimento e da pedagogia crítica de Paulo Freire. Parte-se da compreensão de que a verdade não se confunde com a realidade em si, mas constitui uma construção histórica e social mediada por linguagens, interesses e estruturas de poder. Analisa-se o estatuto da verdade na ciência, na religião e na ideologia, demonstrando como determinadas “verdades” operam como instrumentos de dominação ou libertação. Ao final, sustenta-se que a busca da verdade exige uma postura rigorosamente crítica, dialógica e emancipatória. Em Jesus, a verdade nasce da realidade concreta dos pobres e oprimidos e se opõe a toda forma de ideologia que encobre a injustiça. Sua verdade não serve ao poder, mas se realiza no amor que liberta e transforma a história. Palavras-cha...
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