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Temos conciencia da necessidade de maioria nos parlamentos.

As qualidades e as deficiências de Dilma Rousseff, em nada ou muito pouco contribuíram para o impeachment, violência que só se tornou possível porque seu governo encontrava-se em avassaladora minoria na Câmara dos Deputados, tornada ainda mais grave por força das perplexidades da bancada de seu partido e a fragilidade da condução política do governo. O erro estratégico da direção do PT começara na campanha eleitoral recém finda, ao jogar todas as fichas no pleito presidencial, ou seja, ao relegar a plano secundário as disputas pelo Senado e pela Câmara. Como se ambas as campanhas, as eleições majoritárias e proporcionais, integrantes de um único projeto, não pudessem ser travadas simultaneamente, senão com o mesmo peso. A intelligentsia da campanha e os estrategistas do eventual governo não cogitaram dos custos políticos (de memória ainda tão recente…) que haviam sido impostos ao governo Lula, ao próprio presidente, ao PT e à esquerda como um todo, quando se viram à míngua de maioria parlamentar, aquela contingência sem a qual a governança é simplesmente impossível, como tardiamente descobriria Dilma no seu depoimento no documentário “Democracia em Vertigem”, exibido em 2019. Longe das emoções (e comoções) da época de seu lançamento, bem que esse precioso filme poderia ser revisto pelos novos estrategistas do PT. Lamentavelmente, as lições dos apuros dos governos Lula e Dilma não semearam em terreno fértil. Apesar de conquistar a presidência da república pela terceira vez consecutiva, o PT, em 2014, elegera apenas 70 deputados federais, num universo de 513 (no pleito anterior conquistara 80 cadeiras) trazendo para a materialidade dos fatos um fenômeno que Gilberto Carvalho, observador atento, começara a ver nos eventos de 2013, para espanto de uma nomenklatura panglossiana: desgaste do petismo (e de suas lideranças) associado à emergência de uma extrema-direita que até então teimávamos em ignorar. Deve-se a Lula, já após o processo eleitoral de 2014 e seus números, o chamamento das hostes petistas e democráticas à realidade. Seja refletindo sobre esses números, seja considerando a cena política imediata, Lula declararia à imprensa, logo após a diplomação dos eleitos, o que então, aos desavisados, pareceria avaliação de Cassandra infiltrada nas elocubrações do grande dirigente: “Os tempos que virão pela frente não serão fáceis” (Carta Capital, ano XX, nº 830. Dez. 2014). Lula conhecia, e conheceu como parlamentar e como governante o que pode significar, para o presidente da república, mesmo com respaldo popular (caso que era o seu), lidar com um Congresso indisposto; e conhecia o peso político de uma correlação de forças desfavorável. Dilma vencera o segundo turno mediante uma pequena margem de votos ao cabo de uma campanha eleitoral lotada de erros, e seu adversário, fato inédito desde o restabelecimento das eleições diretas, se recusara a reconhecer o resultado do pleito. Talvez Lula também conhecesse as brutais limitações éticas do vice imposto (pelas circunstâncias, digamos…). Daí sua advertência. Os tempos, previstos como “não fáceis” na metáfora do líder, logo se revelariam dramáticos. A história é conhecida e seus desdobramentos ainda estão em curso, sem prazo para termo, mesmo na desejada hipótese da vitória popular nas eleições deste ano. https://www.cartacapital.com.br/opiniao/dias-dificeis-virao/

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