A primeira revolução libertou os camponeses da semisservidão
e os transformou em proprietários de terra livres. Napoleão conso-
lidou e regulamentou as condições que lhes permitiriam explorar
sossegados o território da França que recentemente havia caído em
seu poder e expiar a cobiça juvenil por propriedade. Porém, o que
acabaria com o camponês francês seria a sua própria parcela, a divisão
do território, a forma de propriedade consolidada por Napoleão na
França. São justamente as condições materiais que transformaram
o camponês feudal francês em camponês parceleiro e Napoleão
em imperador. Bastaram duas gerações para produzir o resultado
inevitável: deterioração progressiva da agricultura, endividamento
progressivo do agricultor. A forma de propriedade “napoleônica”,
que, no início do século XIX, constituiu a condição para a libertação e o
enriquecimento da população camponesa da França, transformou-se
no decorrer desse mesmo século, na lei da sua escravidão e do seu
pauperismo. E justamente essa lei é a primeira das “idées napoléo-
niennes” que o segundo Bonaparte defenderia. Ainda que ele, junto
com os camponeses, continue alimentando a ilusão de que a razão
da ruína destes não reside na propriedade parcelada em si, mas fora
dela, na infl uência de circunstâncias secundárias, os seus experimen-
tos acabarão estourando como bolhas de sabão em contato com as
relações de produção.
O desenvolvimento econômico da propriedade parcelada desvir-
tuou desde a base a relação dos camponeses com as demais classes
da sociedade. Sob Napoleão o parcelamento do território rural
complementou a livre-concorrência e a grande indústria incipiente
protagonizada pelas cidades. A classe camponesa constituía o pro-
testo onipresente contra a aristocracia rural que acabara de ser der-
rubada. As raízes que a propriedade parcelada lançou no território
francês privaram o feudalismo de todo e qualquer nutriente. Os seus
marcos divisórios compunham a fortifi cação natural da burguesia
contra qualquer ataque-surpresa dos seus antigos suseranos. Porém,
no decorrer do século XIX, o lugar do senhor feudal foi ocupado
pelo agiota citadino, a propriedade rural aristocrática foi substituí-
da pelo capital burguês. A parcela do camponês se reduz a um pre-
texto que permite ao capitalista extrair lucro, juros e renda do campo
e deixar que o próprio agricultor se arranje como puder para obter o
salário do seu próprio trabalho. A dívida hipotecária que pesa sobre
o território francês impõe ao campesinato um valor tão elevado de
juros quanto a soma do juro anual de toda a dívida nacional bri-
tânica. Nessa escravização ao capital, para a qual inevitavelmente
ruma o seu desenvolvimento, a propriedade parcelada transformou
a massa da população francesa em trogloditas. Dezesseis milhões
de camponeses (incluindo mulheres e crianças) se abrigam em
cavernas, das quais grande parte possui apenas uma abertura, a
outra parte, apenas duas aberturas e a mais favorecida, apenas três
aberturas. As janelas são para uma casa o que os cinco sentidos são
para a cabeça. A ordem burguesa, que no início do século colocou
o Estado como sentinela para guardar a parcela recém-criada e a
adubou com lauréis, transformou-se no vampiro que suga o sangue
do seu coração e a medula do seu cérebro e os joga no caldeirão
alquímico do capital.
(MARX, p. 145 a 147).
Marx, Karl, 1818-1883
O 18 de brumário de Luís Bonaparte / Karl Marx ; [tradução e notas
Nélio Schneider ; prólogo Herbert Marcuse]. - São Paulo : Boitempo, 2011
A presente análise discore sobre as distinções conceituais entre realidade, verdade e ideologia a partir de uma abordagem filosófica e crítica, articulando contribuições da epistemologia científica, da tradição platônica, da sociologia do conhecimento e da pedagogia crítica de Paulo Freire. Parte-se da compreensão de que a verdade não se confunde com a realidade em si, mas constitui uma construção histórica e social mediada por linguagens, interesses e estruturas de poder. Analisa-se o estatuto da verdade na ciência, na religião e na ideologia, demonstrando como determinadas “verdades” operam como instrumentos de dominação ou libertação. Ao final, sustenta-se que a busca da verdade exige uma postura rigorosamente crítica, dialógica e emancipatória. Em Jesus, a verdade nasce da realidade concreta dos pobres e oprimidos e se opõe a toda forma de ideologia que encobre a injustiça. Sua verdade não serve ao poder, mas se realiza no amor que liberta e transforma a história. Palavras-cha...
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