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Thatcher ultra conservadora

Há 10 anos, em 8 de abril de 2013, falecia Margaret Thatcher. Expoente do Partido Conservador britânico, Thatcher foi primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990, período em que ajudou a consolidar a hegemonia da agenda ultraliberal. Famosa por seus discursos e frases de efeito demonizando o Estado e os beneficiários de programas sociais do governo, Thatcher fez carreira como agente política, passando 54 anos de sua vida sendo sustentada com fartas regalias pelo Estado. Ingressou formalmente na política em 1950, após se filiar ao Partido Conservador. Em 1959, foi eleita representante da Câmara dos Comuns, onde frequentemente se posicionou à direita de seu partido — nomeadamente quando votou a favor da restauração do espancamento como castigo corporal judicial. Em 1967, foi selecionada pelo governo dos Estados Unidos para participar de um programa de formação de lideranças. Nomeada Secretária de Educação durante o governo de Edward Heath, Thatcher conduziu uma série de ações extremamente impopulares. Alegando a necessidade de reduzir gastos, ordenou o corte do fornecimento de leite para estudantes da rede pública, provocando protestos das famílias carentes. A decisão lhe rendeu o apelido de "Milk Snatcher" ("Ladra de Leite"). Thatcher também cortou a subvenção das merendas e apoiou a proposta de Jacob Rothschild de subordinar o financiamento público de pesquisas aos interesses do mercado. Por fim, encerrou o custeio das escolas de gramática, forçando-as a encerrarem suas atividades ou a cobrarem mensalidades. Após a derrota dos conservadores na eleição de 1974, Thatcher assumiu a liderança da oposição. Encarnando o papel de lobista do Instituto de Assuntos Econômicos — think tank ultraliberal fundado pelo magnata Antony Fisher —, Thatcher articulou uma oposição ferrenha ao Estado de bem-estar social e ao keynesianismo, defendendo teses como o "Estado mínimo", "mais liberdade para as empresas", desregulamentação financeira e redução dos impostos. Buscando apoio dos conservadores, atacou os imigrantes oriundos de países periféricos, usando de uma retórica abertamente racista. Thatcher foi eleita primeira-ministra em 1979, após articular a moção de censura que resultou na queda do trabalhista James Callaghan. Sua gestão econômica implementou uma série de medidas do receituário ultraliberal, sendo bastante influenciada pelas ideias de Milton Friedman e Alan Walters. Seguindo uma rígida política de austeridade fiscal, Thatcher cortou investimentos e aboliu benefícios, pensões e programas sociais. Serviços públicos foram severamente afetados. Sua política tributária foi particularmente prejudicial para os trabalhadores. Thatcher reduziu as alíquotas do imposto de renda dos ricos, aumentando em contrapartida os impostos indiretos e sobre o consumo. Também instituiu o Imposto Comunitário — taxa de valor único cobrado de todos os habitantes, independentemente da sua renda. Thatcher liderou um amplo programa de privatizações, incidindo sobre setores estratégicos como gás, água, telecomunicações e energia. Estatais como a British Telecom e a British Gas foram vendidas a preços subfaturados. Programas públicos como as "council houses" (moradias sociais) também foram repassados ao setor privado. Thatcher também tentou, sem sucesso, privatizar o sistema público de saúde. As privatizações foram combinadas com a desregulamentação do setor financeiro, abertura econômica e abolição dos mecanismos de controle cambial, impulsionando a financeirização da economia. Ao mesmo tempo, o governo promoveu o afrouxamento da legislação trabalhista e articulou medidas para suprimir o poder e a influência dos sindicatos. As medidas tomadas por Thatcher tiveram consequências devastadoras para os trabalhadores. Setores tradicionais da economia inglesa, como a indústria de ferro e carvão, foram praticamente extintos em função da desregulamentação do mercado, deixando centenas de milhares de pessoas desempregadas. A taxa de desemprego no Reino Unido aumentou para o maior percentual da história, ao passo que o poder de compra da população caiu para o menor nível registrado desde a Segunda Guerra Mundial. Tal conjuntura levou ao crescimento da desigualdade social e ao rápido empobrecimento da população. A classe trabalhadora reagiu organizando uma série de greves, mas foi brutalmente reprimida pelo governo. O movimento autonomista da Irlanda do Norte também foi alvo de violenta repressão durante o governo Thatcher, marcado pela ação de esquadrões da morte e grupos paramilitares. Indiferente às demandas dos prisioneiros irlandeses, a primeira-ministra permitiu que Bobby Sands e outros nove militantes autonomistas morressem após mais de dois meses de greve de fome. A política externa de Thatcher foi marcada pelo incremento do militarismo, pela adesão à retórica anticomunista da Guerra Fria e pelo alinhamento automático aos ditames Washington, sobretudo durante o governo de Ronald Reagan. Thatcher defendeu a expansão da OTAN na Europa e autorizou a implantação de cruzeiros nucleares estadunidenses no território britânico. As forças nucleares do Reino Unido foram triplicadas em seu mandato e o país apoiou quase todas as intervenções militares conduzidas pelo Pentágono — nomeadamente o bombardeio da Líbia, realizado a partir das bases aéreas britânicas. Durante a Guerra das Malvinas, Thatcher ordenou o torpedeamento do cruzador General Belgrano, que resultou em 323 mortes, e chegou a cogitar o uso de armas nucleares contra a Argentina. Seu governo apoiou uma série de regimes repressivos, da ditadura de Augusto Pinochet no Chile ao regime do apartheid na África do Sul. Thatcher chegou a rotular Nelson Mandela e o Congresso Nacional Africano como "terroristas". Refletindo a insatisfação popular, gigantescos protestos eclodiram por todo o país, com centenas de milhares de pessoas exigindo a saída de Thatcher. Mas, respaldada pelo apoio do mercado e da imprensa, a primeira-ministra se manteve no cargo por mais de uma década, até sua renúncia em novembro de 1990. Nos anos seguintes, Thatcher seguiu participando ativamente das campanhas conservadoras e respaldou Iain Duncan Smith como líder do partido. Ao mesmo tempo, deu respaldo à infiltração dos neocons no Partido Trabalhista e elogiou Tony Blair por seu apoio à Guerra do Iraque. Defendeu, por fim, que o Reino Unido saísse da União Europeia e aderisse ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA). Margaret Thatcher faleceu em 8 de abril de 2013, em consequência de um acidente vascular cerebral. Enquanto a mídia britânica lamentou sua morte chamando-a de "a melhor primeira ministra em tempos de paz" e a nobreza da Inglaterra esforçou-se em demonstrar consternação, os trabalhadores saíram às ruas para celebrar sua morte carregando placas onde se lia "the witch is dead" ("a bruxa morreu"). Canções irônicas eram entoadas e até uma petição pedindo a privatização de seu funeral foi organizada. Em várias cidades, ocorreram festas populares regadas a champanhe e até mesmo desfiles de rua foram improvisados, com multidões celebrando como se fosse um carnaval. Manifestantes encheram a entrada da casa da primeira-ministra de garrafas de leite, para lembrar os cortes que ele promovera. Pela primeira vez, os portais de notícia do Reino Unido tiveram de bloquear as seções de comentários, pois a população, tomada de euforia, não cansava de postar manifestações de apreço pela partida da "Dama de Ferro".

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