A relação entre o crime organizado e as elites econômicas brasileiras não pode ser analisada como fenômeno isolado, mas como expressão estrutural da racionalidade neoliberal.
Em SP o PCC é ligado a Faria Lima e no RJ quem do mercado é ligado ao CV?
Em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) construiu um modelo de gestão baseado em eficiência, organização e disciplina — características que dialogam com a lógica empresarial do capital financeiro.
Autores como Gabriel Feltran (2018) e Karina Biondi (2010) demonstram que o PCC transformou-se em uma “empresa moral” e racional, articulando mercados ilícitos e legais, negociando com agentes do Estado e criando um sistema econômico próprio de circulação de bens e poder.
Enquanto isso, no Rio de Janeiro, o Comando Vermelho (CV) e, posteriormente, as milícias, consolidaram-se em contextos de informalidade urbana, violência policial e ausência seletiva do Estado.
Como analisa Michel Misse (2011), o crime carioca é profundamente entrelaçado com a política e com as instituições de segurança, gerando o que ele chama de mercadorias políticas: a venda da proteção, do medo e da ilegalidade.
O mercado financeiro — representado metaforicamente pela “Faria Lima” — e o crime organizado compartilham a mesma racionalidade instrumental: a maximização do lucro e o controle dos fluxos.
A fronteira entre o “ilícito” e o “legal” torna-se, portanto, simbólica e funcional. Vera Telles (2010) argumenta que o neoliberalismo brasileiro se sustenta em redes híbridas de legalidade e ilegalidade, nas quais elites e grupos criminosos ocupam posições complementares.
Assim, tanto o investidor que especula na bolsa quanto o gestor do tráfico atuam dentro de uma mesma matriz econômica: ambos operam a partir da financeirização da vida, da mercantilização da morte e do controle sobre territórios — sejam eles favelas ou bolsas de valores. A violência é, nesse sentido, não um desvio, mas um mecanismo de governança.
Comando Vermelho: economia política do crime, do Estado e do mercado no Rio de Janeiro
O Comando Vermelho (CV), surgido no início da década de 1970 no presídio da Ilha Grande, é mais que uma organização criminosa: representa a fusão entre as lógicas do capitalismo periférico, da repressão estatal e da informalidade urbana.
A origem do CV, conforme Misse (2011), se dá na convivência entre presos comuns e políticos durante a ditadura militar, o que gerou uma cultura de solidariedade e resistência, mais tarde convertida em estrutura de poder econômico e territorial.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, com a expansão do tráfico de drogas e o aprofundamento da exclusão social, o Comando Vermelho consolidou-se como uma empresa criminal capaz de gerir fluxos, controlar territórios e negociar com diferentes instâncias do Estado.
Tal como analisa Alba Zaluar (2004), o tráfico carioca se tornou um sistema de “integração perversa”, no qual os jovens das favelas encontram no crime o único acesso à renda, consumo e prestígio.
A relação do CV com o mercado é estrutural. A economia do narcotráfico movimenta capital, cria redes logísticas, corrompe instituições e financia o comércio local — reproduzindo, em escala marginal, a racionalidade do capital.
Como observa Feltran (2018), o crime e o capital legal compartilham o mesmo código: a busca pela acumulação e pelo controle.
No caso do Rio, esse controle é territorial e simbólico: o “dono do morro” é também o gestor de uma economia política da sobrevivência.
A interface com a política e com as forças de segurança é ambígua. Pesquisas de Telles (2010) e Cano (2018) indicam que a polícia fluminense, fragmentada e permeada por redes de corrupção, opera tanto na repressão quanto na manutenção dessas estruturas.
O que se observa é uma simbiose funcional: o Estado legitima sua presença através da violência, enquanto o crime se alimenta do caos e da ausência de direitos.
A expansão das milícias, compostas por ex-policiais e agentes públicos, demonstra a continuidade dessa economia da violência sob outro regime de gestão — privatizado, paramilitar e eleitoralmente articulado.
O Comando Vermelho, portanto, não é um corpo estranho ao sistema, mas parte orgânica da modernidade desigual brasileira.
Ele expressa a contradição central do capitalismo periférico: a convivência entre o mercado globalizado e a economia da morte.
Na favela e na Faria Lima, circulam os mesmos princípios de acumulação — apenas mudam os instrumentos: um opera com derivativos; o outro, com fuzis.
Terrorismo de Estado e o Mercado do Crime: a Chacina do Rio como Marco Histórico da Violência Política no Brasil
Os recentes acontecimentos no Rio de Janeiro expõem, de forma trágica, a simbiose entre Estado, mercado e crime organizado. A chacina que ceifou dezenas de vidas nas favelas não pode ser interpretada apenas como um episódio policial, mas como um ato de terrorismo de Estado — expressão máxima de um projeto político autoritário que legitima o extermínio em nome da “segurança pública”.
Como afirma Michel Misse (2011), o “mercado do crime” no Brasil é estruturado em torno de redes que envolvem agentes públicos, empresários, milicianos e facções. Essa teia de relações revela que o Comando Vermelho (CV) e outras organizações não atuam à margem, mas em diálogo subterrâneo com setores econômicos e políticos. Quando Fernando Haddad defende “seguir o caminho do dinheiro”, sugere o desvelamento dessa economia ilícita travestida de legalidade — um capitalismo periférico em que a corrupção, a violência e o lucro se confundem.
A chacina do Rio é, portanto, um ponto de inflexão. Ela inscreve na história o avanço de uma necropolítica, nos termos de Achille Mbembe (2018), que define quem pode viver e quem deve morrer.
O Estado, ao agir com letalidade seletiva e ao proteger os interesses de grupos econômicos e políticos vinculados ao crime, assume sua face fascista: o uso da morte como forma de governo e controle social.
Mais do que uma tragédia, o episódio revela o esgotamento do modelo de segurança baseado na guerra às drogas e no controle das populações pobres e negras.
O que está em jogo é a própria democracia, corroída pela naturalização da violência estatal e pela captura das instituições por redes ilícitas de poder.
Quando a Polícia Federal e os órgãos de controle avançarem sobre os fluxos financeiros e patrimoniais — “seguindo o dinheiro” —, o país poderá enfim enxergar que o verdadeiro crime organizado não está apenas nas favelas, mas também nas cúpulas políticas e econômicas que sustentam e lucram com a barbárie.
Se atacar as fontes de renda do crime organizado irá atingir quem lucra com o crime organizado, e parece que não é isso que querem. Subir o morro pra matar pobre e não mudar nada.
A moral capitalista da necropolítica escolhe quem morre e é uma escolha de classe. Uma ideologia da necropolítica a moral da morte, é um Fascismo que utiliza o terrorismo de Estado para dizer que está resolvendo o problema é uma máscara da realidade de uma elite que lucra com o ilícito e tem aparência de honesta perante a sociedade.
Os verdadeiros traficantes só recebem os lucros e são anônimos. Quem recebe a polícia e a as balas são os pobres das favelas.
Na lógica perversa das classes, riqueza é confundida com virtude e pobreza com culpa. Sartre já advertia: ‘o outro é o inferno’ — o olhar moralista que condena o pobre enquanto absolve o burguês.
Freud veria nisso o instinto de poder travestido de moral: o prazer inconsciente de dominar o outro. A verdadeira corrupção é estrutural — moral, simbólica e social.
Referências bibliográficas
BIONDI, Karina. Junto e misturado: uma etnografia do PCC. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.
BIONDI, Karina. Junto e misturado: uma etnografia do PCC. São Paulo: Terceiro Nome, 2010.
CANO, Ignacio. As milícias no Rio de Janeiro: honestidade e poder paralelo. Rio de Janeiro: LAV/UERJ, 2018.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MISSE, Michel. Crime e violência no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011
FELTRAN, Gabriel. Irmãos: uma história do PCC. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
MISSE, Michel. Crime e violência no Brasil contemporâneo: estudos de sociologia do crime e da violência urbana. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011.
TELLES, Vera da Silva. A cidade nas fronteiras do legal e ilegal. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2010.
WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2001.
ZALUAR, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. Rio de Janeiro: FGV, 2004



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