No extremo Norte do Brasil, o poder se confunde com o garimpo, e a fronteira entre a política e o crime armado se torna cada vez mais tênue. Em Roraima, um estado historicamente marcado por disputas territoriais e ambientais, a prisão do ex-presidente da Assembleia Legislativa, Jalser Renier (sem partido, ex SD, PSDB e DEM atual União Brasil), em 2021, revelou um submundo político que opera entre a legalidade e a força.
Segundo o Ministério Público de Roraima, Jalser chefiava um grupo armado responsável por sequestros, ameaças e tráfico de armas, usando sua influência institucional para intimidar adversários e proteger interesses econômicos ligados à mineração ilegal.
A operação “Importunus”, conduzida pela Polícia Civil e pelo Gaeco, desvendou um esquema de vigilância e coação digno de um Estado paralelo — com grampos, agentes infiltrados e redes de informação clandestinas.
Reportagens da InfoAmazônia e da Folha de Boa Vista apontam que o grupo de Renier atuava em sintonia com empresários do garimpo ilegal e servidores públicos.
As investigações indicam que o ex-deputado mantinha relações com intermediários que operavam em áreas de extração de ouro dentro de terras indígenas, especialmente na Terra Yanomami, uma das regiões mais devastadas pela mineração predatória nos últimos anos.
A prisão de Jalser, embora simbólica, não encerra o problema. Ela expõe o que pesquisadores chamam de “milicianização da Amazônia” — um processo em que organizações políticas, forças de segurança e grupos armados se unem para controlar rotas de comércio ilegal e territórios estratégicos.
O sociólogo Michel Misse (UFRJ) descreve esse fenômeno como a consolidação de “mercadorias políticas”, em que o poder público vende proteção, acesso e silêncio.
Em Roraima, como em outros estados da Amazônia, o garimpo não é apenas uma atividade ilegal: é uma economia política. Deputados, empresários, policiais e até agentes ambientais participam de um sistema de cumplicidade silenciosa, que sustenta o crime sob o verniz da legalidade.
“É um regime de exceção permanente”, afirma a antropóloga Vera Telles (USP). “O Estado aparece e desaparece conforme os interesses de quem detém o poder territorial.”
No coração da floresta, onde o ouro vale mais do que a lei, a democracia se dissolve na lama dos rios contaminados.
E a Amazônia se transforma, cada vez mais, em um espelho do Brasil: um país em que as armas e o dinheiro ditam as regras da política.
Fontes
InfoAmazônia, 2022: “Jalser Renier e a milicianização da política em Roraima.”
Folha de Boa Vista, 2021: “Operação Importunus: ex-deputado Jalser é preso por chefiar grupo armado.”
MISSE, Michel. Crime e Violência no Brasil Contemporâneo. Lumen Juris, 2011.
TELLES, Vera da Silva. A Cidade nas Fronteiras do Legal e Ilegal. Argvmentvm, 2010.

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