A fronteira entre o poder político e o crime organizado no Brasil dissolveu-se nas últimas décadas, dando lugar a uma complexa teia de relações entre agentes públicos, empresários, facções e milícias. Quais pessoas e seus respectivos partidos políticos que tem ligação com crime organizado no Brasil contemporâneo? Não se trata apenas de corrupção ou desvio de conduta individual — o que está em jogo é uma estrutura paralela de governança, em que o Estado e o crime se tornam faces complementares do mesmo projeto de poder.
O caso mais emblemático dessa fusão é o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, cuja investigação revelou conexões profundas entre milicianos, políticos e setores da segurança pública. Segundo a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão — ex-deputado federal e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, respectivamente — teriam atuado como mandantes do crime, com apoio de estruturas armadas na Zona Oeste carioca. As reportagens do Brasil de Fato e da Folha de S.Paulo apontam que os Brazão são símbolos de um fenômeno mais amplo: o poder territorial das milícias como capital eleitoral.
Historicamente, o Rio de Janeiro foi o laboratório desse modelo. A ascensão das milícias nos anos 1990 e 2000, documentada por Michel Misse (UFRJ) e Ignacio Cano (UERJ), demonstra como grupos formados por policiais, bombeiros e ex-militares transformaram o controle da violência em um negócio lucrativo e politicamente rentável. As investigações da CPI das Milícias (2008) já alertavam para a participação de agentes eleitos, como os irmãos Natalino e Jerônimo Guimarães Filho, do então PMDB e DEM, posteriormente condenados por associação criminosa.
No Norte do país, fenômenos semelhantes emergem sob outras formas. O ex-presidente da Assembleia Legislativa de Roraima, Jalser Renier, foi preso em 2021 sob acusação de liderar uma organização armada envolvida em sequestros, mineração ilegal e tráfico de armas — uma “milícia institucionalizada”, segundo o Ministério Público. O caso, amplamente noticiado pela InfoAmazônia, mostra como o modelo de poder miliciano se adapta às dinâmicas econômicas locais, articulando crime, política e negócios ambientais ilegais.
Esses episódios evidenciam uma realidade desconfortável: o crime organizado não opera fora do Estado, mas dentro dele. Como argumenta a socióloga Vera Telles (USP), o Brasil vive sob um “regime de ilegalismo institucionalizado”, no qual a fronteira entre legalidade e ilegalidade é constantemente negociada. Michel Misse (2011) reforça essa ideia ao definir o crime como uma mercadoria política: algo que se compra, se vende e se legitima socialmente.
A sociologia crítica contemporânea aponta que o Estado brasileiro produz e reproduz esses espaços híbridos. A ausência seletiva de políticas sociais e a presença excessiva da violência policial criam o ambiente ideal para a proliferação de poderes paralelos. O resultado é um Estado de exceção permanente nas periferias, onde a lei é substituída pela barganha armada.
A questão central, portanto, não é se há políticos envolvidos com o crime organizado — mas por que o sistema político depende dessas redes para se manter. Nas favelas, nas fronteiras amazônicas e até nas câmaras legislativas, a governança armada se torna parte da engrenagem do poder. Como já advertia Loïc Wacquant (2001), “a gestão neoliberal da miséria exige tanto a invisibilidade social quanto o controle punitivo”. O Brasil, nesse sentido, tornou-se um laboratório de ambos.
Enquanto a democracia formal insiste em seus rituais eleitorais, uma outra forma de soberania — silenciosa, armada e lucrativa — se consolida nas sombras do Estado. E talvez seja essa, hoje, a verdadeira face do poder no país.
Referências
CANO, Ignacio. As Milícias no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: LAV/UERJ, 2018.
MISSE, Michel. Crime e Violência no Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011.
TELLES, Vera da Silva. A Cidade nas Fronteiras do Legal e Ilegal. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2010.
WACQUANT, Loïc. Punir os Pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2001.
Brasil de Fato, 2024; Folha de S.Paulo, 2024; InfoAmazônia, 2022; Relatórios do MPF e CPI das Milícias (2008–2020).

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