São Francisco do Sul, litoral norte de Santa Catarina, tornou-se recentemente palco de um conflito humano-fauna envolvendo macacos-pregos entrando em áreas urbanas e até em residências. Mas longe de ser uma “invasão” espontânea dos animais no tecido urbano, especialistas ambientais apontam que o problema é o reflexo direto de décadas de ocupação humana e destruição de habitat natural, principalmente da Mata Atlântica — bioma onde essa espécie evoluiu e ainda depende de floresta densa para sobreviver.
Escutando ontem o noticiário sobre invasão dos macacos pregos em São Francisco do Sul. A nossa mentalidade antropocêntrica de que tudo na terra gira em nossos interesses mercantilistas nos deixam cegos e ver a realidade que ocupamos o território de primatas que aliás são nossos primos. Destruímos a floresta que é o habitat natural do macacos-pregos e urbanizados, resta apenas 12% de floresta da Mata Atlântica em São Francisco do Sul. O desconhecimento do comportamento dos macacos-pregos às pessoas agridem eles. Na verdade eles apenas procuram comida, coisa que negamos ao destruímos o seu habitat não é mesmo?
Em 2009 eram 10 macacos, o vídeo abaixo foi feito no dia 18 de julho eram apenas 8, observa-se que 2 macacos-pregos não estão presentes. Morreram, ou foram mortos, ou capturados por serem dóceis. Já houve duas pessoas dizerem que tem um macaco em casa.
O desmatamento da Mata Atlântica e a perda de habitat
A Mata Atlântica é um dos biomas mais devastados do planeta, com apenas cerca de 12% da cobertura original remanescente devido à expansão urbana, agricultura e outros usos humanos do solo. Esse processo é considerado uma das principais causas da perda de habitat de espécies endêmicas de primatas, incluindo os macacos-pregos (gênero Sapajus).
A perda e fragmentação de floresta nativa — muitas vezes substituída por áreas urbanas, pastagens ou monoculturas — reduz drasticamente o espaço disponível para alimentação, reprodução e circulação desses primatas, levando a deslocamentos para áreas periféricas às cidades.
Macacos-pregos: ecologia e dependência de floresta
Os macacos-pregos são primatas sociais, ativos na Mata Atlântica e geralmente dependentes de árvores tanto para repouso quanto para obtenção de alimento natural. Em ambientes naturais, eles percorrem grandes áreas em busca de frutos, sementes e pequenos invertebrados.
Em ecossistemas fragmentados ou alterados, no entanto, cientistas têm observado mudanças comportamentais: grupos exploram recursos antropogênicos — como restos de comida ou lixo urbano — e podem alterar padrões de dieta e comportamento. Fragmentos florestais sob influência urbana podem causar consumo aumentado de alimentos humanos e exposição a riscos como doenças ou colisões com infraestrutura.
Expulsão do habitat e conflito urbano
Quando a Mata Atlântica é reduzida ou fragmentada, os macacos-pregos perdem corredores ecológicos e áreas contínuas de floresta. Isso não só diminui suas fontes naturais de alimento como os força a buscar alternativas em áreas urbanizadas, muitas vezes provocando conflitos com moradores.
Esse padrão tem sido documentado em primatas de biomas diversos — onde a degradação de habitat leva a maior proximidade com áreas humanas e a comportamentos alimentares associados aos espaços antropizados.
Em São Francisco do Sul, relatos de macacos-pregos entrando em quintais e casas não são um sinal de adaptação bem-sucedida, mas um indicador de estresse ambiental e perda de habitat natural. São os próprios humanos, ao ocuparem e alterarem intensamente a terra, que estão empurrando esses animais para as periferias urbanas.
Consequências ecológicas além do conflito aparente
A perda de habitat tem efeitos que vão além dos encontros incômodos entre humanos e primatas. A diminuição de grupos de macacos pode alterar funções ecológicas essenciais — como a dispersão de sementes de árvores nativas, um processo fundamental para a regeneração florestal.
Ou seja, o impacto não fica restrito aos próprios primatas: afeta toda uma teia ecológica que sustenta a floresta e seus serviços ambientais, incluindo a qualidade do solo, o ciclo de nutrientes e a biodiversidade geral.
O que dizem as pesquisas científicas
Pesquisas no bioma da Mata Atlântica têm demonstrado consistentemente que:
A fragmentação e destruição do habitat natural é a maior ameaça à conservação de primatas, superando inclusive a caça e doenças.
Primatas em ambientes antropizados acabam por utilizar recursos alimentares urbanos ou modificados, o que altera seu comportamento e pode comprometer a saúde das populações.
A continuidade da floresta é essencial para a manutenção de populações viáveis de macacos-pregos e de outros primatas endêmicos.
Mentalidade antropocêntrica e a raiz estrutural do conflito
Na base desse conflito entre humanos e macacos-pregos está a mentalidade antropocêntrica de ocupação territorial, isto é, uma forma de organização social que coloca o ser humano como centro absoluto das decisões sobre o uso da terra, tratando a natureza como mero recurso econômico ou obstáculo ao desenvolvimento.
Segundo o sociólogo ambiental Enrique Leff, o antropocentrismo sustenta uma racionalidade econômica predatória, que ignora os limites ecológicos e subordina os ecossistemas à lógica da expansão urbana, do turismo imobiliário e da especulação fundiária (LEFF, 2006). No caso da Mata Atlântica, essa racionalidade levou à fragmentação extrema do bioma, reduzindo drasticamente áreas contínuas de floresta essenciais para a sobrevivência da fauna.
O historiador ambiental Warren Dean demonstra que a devastação da Mata Atlântica não foi um acidente, mas um processo histórico sistemático, impulsionado por uma visão antropocêntrica que naturalizou o desmatamento em nome do “progresso” (DEAN, 1996). Essa lógica permanece ativa em cidades costeiras como São Francisco do Sul, onde a expansão urbana avança sobre áreas de mata nativa e corredores ecológicos.
Do ponto de vista da biologia da conservação, a fragmentação causada por essa mentalidade rompe a dinâmica ecológica da floresta. Estudos indicam que primatas são particularmente sensíveis à perda de habitat, pois dependem de grandes áreas florestais contínuas para alimentação, reprodução e deslocamento (RIBEIRO et al., 2009; FRAGASZY et al., 2004).
Assim, quando macacos-pregos passam a frequentar quintais, telhados e residências, o fenômeno não representa uma “invasão animal”, mas sim a consequência direta da invasão humana sobre territórios historicamente ocupados pela fauna silvestre. Como aponta a conservação moderna, trata-se de um conflito produzido socialmente, e não de um problema causado pelos animais (SOULÉ, 1985).
Superar esse cenário exige uma mudança de paradigma: a transição de uma mentalidade antropocêntrica para uma visão ecocêntrica ou socioambiental, que reconheça humanos e não humanos como partes interdependentes de um mesmo sistema ecológico. Sem essa mudança estrutural, os conflitos entre cidades e fauna tendem a se intensificar, colocando em risco tanto a biodiversidade quanto a qualidade de vida humana.
Referências citadas no texto
DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
LEFF, Enrique. Racionalidade ambiental: a reapropriação social da natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
RIBEIRO, M. C. et al. The Brazilian Atlantic Forest: How much is left, and how is the remaining forest distributed? Biological Conservation, v. 142, 2009.
FRAGASZY, D.; VISALBERGHI, E.; FEDIGAN, L. The Complete Capuchin: The Biology of the Genus Cebus. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.
SOULÉ, Michael E. What is conservation biology? BioScience, v. 35, n. 11, 1985.
SOS MATA ATLÂNTICA; INPE. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica.
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Mata Atlântica: biodiversidade e devastação histórica.
Anexo
20 de dezembro de 2025
Este vídeo é dos macacos-pregos comendo em uma árvore de figueira no final da rua da Corda, Ubatuba.
18 de julho de 2025, na Rua da Corda caminho do Forte
Maio de 2025
Conclusão
A chamada “invasão” de macacos-pregos em áreas urbanas de São Francisco do Sul é menos um fenômeno de escolha dos animais e mais uma consequência das pressões antrópicas sobre o ambiente natural. A mentalidade antropocêntrica de ocupação territorial e a destruição da Mata Atlântica deslocaram esses primatas de seus habitats tradicionais, forçando-os a conviver em espaços urbanos em busca de alimento e abrigo.
A preservação e restauração de corredores florestais contínuos, políticas públicas de conservação e educação ambiental são passos fundamentais para reduzir esse tipo de conflito e garantir a sobrevivência dessas espécies em longo prazo.
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