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AS POSSIBILIDADES DE CONSTRUÇÃO DE VALORES PARA A HUMANIDADE A PARTIR DE NIETZSCHE, DO EXISTENCIALISMO, DA PSICANÁLISE, DA CRÍTICA SOCIAL E DA TEORIA DO PODER

O presente estudo analisa as possibilidades contemporâneas de construção de valores para a humanidade a partir do pensamento de Friedrich Nietzsche e de seus desdobramentos no existencialismo, na psicanálise, na crítica social, na teoria do poder e em sua recepção no Brasil. Parte-se da constatação da crise dos fundamentos tradicionais da moral, intensificada pelo diagnóstico nietzscheano da “morte de Deus” e pelo avanço da racionalidade técnico-instrumental. Por meio de pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e hermenêutica, examina-se como diferentes correntes críticas reelaboram o problema dos valores em um mundo marcado pelo niilismo, pela crise da subjetividade e pela intensificação das relações de poder. Conclui-se que, longe da restauração de valores absolutos, a contemporaneidade aponta para a construção histórica, crítica e ética dos valores, fundada na liberdade, na responsabilidade, na crítica das formas de dominação e na afirmação da vida.


Palavras-chave: Nietzsche. Valores. Existencialismo. Psicanálise. Poder. Crítica Social.




1 INTRODUÇÃO

A questão dos valores ocupa lugar central na história da filosofia e das ciências humanas. Durante séculos, os valores morais foram fundamentados em sistemas metafísicos e religiosos que forneciam princípios universais para a ação humana. A modernidade, entretanto, ao promover a crítica da religião e a centralidade da razão científica, iniciou um processo de deslocamento desses fundamentos tradicionais.

Friedrich Nietzsche (1844–1900) radicaliza esse movimento ao anunciar a “morte de Deus” e ao demonstrar que os valores não possuem fundamento transcendente, mas são produtos de processos históricos, psicológicos e de relações de poder. Com isso, inaugura-se o grande problema da contemporaneidade: como construir valores em um mundo no qual os fundamentos absolutos foram dissolvidos?

O presente artigo tem como objetivo analisar as possibilidades de construção de valores para a humanidade a partir de cinco eixos teóricos: (a) a crítica de Nietzsche aos fundamentos da moral; (b) o existencialismo; (c) a psicanálise; (d) a crítica social e a teoria do poder; e (e) a recepção de Nietzsche no Brasil. A pesquisa é de natureza bibliográfica, qualitativa e hermenêutica.




2 NIETZSCHE E A CRISE DOS FUNDAMENTOS DOS VALORES

Nietzsche realiza uma das mais profundas críticas à moral ocidental. Em Genealogia da Moral, demonstra que os valores não são universais nem eternos, mas frutos de processos históricos marcados por disputas de força (NIETZSCHE, 2009). A moral cristã nasce do ressentimento dos fracos contra os fortes, operando uma inversão dos valores da Antiguidade.

Com a proclamação da “morte de Deus”, em A Gaia Ciência (NIETZSCHE, 2012), ocorre o colapso dos fundamentos transcendentes da moral. A consequência direta desse processo é o niilismo: a experiência da perda dos sentidos últimos da existência. O niilismo, entretanto, não deve ser entendido apenas como decadência, mas também como condição de possibilidade para a criação de novos valores.

Nietzsche propõe a transvaloração de todos os valores e a figura do além-do-homem (Übermensch) como símbolo daquele que cria seus próprios valores a partir da afirmação da vida. Assim, os valores deixam de ser recebidos como herança divina ou racional e passam a ser produzidos historicamente pela ação humana.



3 O EXISTENCIALISMO E A CONSTRUÇÃO DOS VALORES NA LIBERDADE

O existencialismo retoma de Nietzsche o problema da ausência de fundamentos absolutos. Para Sartre (2014), se Deus não existe, não há natureza humana pré-determinada: a existência precede a essência. O ser humano é inteiramente responsável pela construção de seus valores.

Nessa perspectiva, os valores não são impostos externamente, mas resultam das escolhas livres do sujeito. A liberdade, contudo, não é um privilégio confortável, mas um fardo: o homem está “condenado a ser livre”. Cada escolha possui um valor universalizante, pois, ao escolher para si, o sujeito escolhe também para a humanidade.

Camus (2019) enfrenta o problema dos valores a partir do absurdo. Em um mundo sem sentido transcendental, a única resposta eticamente legítima é a revolta: a recusa do suicídio e da submissão. A revolta cria valores sem recorrer a fundamentos metafísicos. O valor fundamental torna-se, então, a dignidade da existência.


No existencialismo, portanto, os valores são construídos:


Na liberdade;


Na responsabilidade;


Na ação concreta;


No compromisso ético com o outro.





4 A PSICANÁLISE E OS LIMITES INCONSCIENTES DA CONSTRUÇÃO DOS VALORES

A psicanálise introduz um elemento decisivo na reflexão sobre os valores: o inconsciente. Freud (2011) demonstra que o sujeito não é plenamente racional e consciente de suas motivações. Os valores morais, as normas e as interdições são interiorizados por meio do superego, frequentemente produzindo culpa, repressão e sofrimento.

Assim como Nietzsche, Freud revela que a moral não é apenas racional, mas pulsional. A civilização exige a repressão dos instintos, gerando o que denomina mal-estar na civilização. Os valores, nesse contexto, são sempre tensionados entre o desejo e a norma.

Jung (2013), de outro lado, compreende os valores a partir dos arquétipos do inconsciente coletivo. A construção de valores está vinculada ao processo de individuação, no qual o sujeito integra consciente e inconsciente.


A psicanálise, portanto, mostra que a construção dos valores para a humanidade:


Não é puramente racional;


É atravessada por conflitos inconscientes;


Exige a elaboração simbólica do desejo, da culpa e da agressividade.




5 CRÍTICA SOCIAL, TEORIA DO PODER E A PRODUÇÃO HISTÓRICA DOS VALORES

A crítica social demonstra que os valores são também produtos das estruturas econômicas e políticas. Em Marx, os valores dominantes refletem os interesses da classe dominante. A moral e a ideologia cumprem função de legitimar a dominação.

Foucault (2014), inspirado em Nietzsche, mostra que os valores são produzidos em redes de poder. O poder não é apenas repressivo, mas produtivo: ele produz saberes, subjetividades e normas. Os valores modernos — normalidade, produtividade, desempenho — são efeitos de dispositivos disciplinares.

A Escola de Frankfurt, especialmente em Adorno e Horkheimer (1985), revela que a razão instrumental transforma-se em instrumento de dominação. Os valores passam a ser subordinados à lógica da técnica e do mercado. O que deveria emancipar passa a oprimir.


Assim, a crítica social demonstra que a construção de valores para a humanidade:


Não é neutra;


Está vinculada a relações de poder;


Exige a crítica das estruturas de dominação econômica, política e cultural.






6 A RECEPÇÃO DE NIETZSCHE NO BRASIL E O PROBLEMA DOS VALORES

No Brasil, a reflexão sobre valores a partir de Nietzsche assume contornos próprios, vinculados às contradições da modernidade periférica. Cruz Costa (2001) compreende Nietzsche como pensador decisivo da crise da metafísica e da autoridade moral tradicional no país.

Giacoia Júnior (2005) destaca que a genealogia nietzscheana permite compreender a formação histórica dos valores, especialmente no contexto das disputas políticas e culturais contemporâneas. Para ele, Nietzsche oferece instrumentos conceituais para pensar o niilismo, a violência simbólica e a crise ética nas sociedades modernas.

Safatle (2016) articula Nietzsche com a psicanálise e a crítica ao capitalismo neoliberal. Os valores contemporâneos são marcados pela lógica do desempenho, da culpa e da produtividade. O sofrimento psíquico torna-se elemento estrutural da vida social. Assim, a construção de novos valores exige a transformação das estruturas que produzem o sofrimento.

A recepção brasileira de Nietzsche aponta, portanto, para a necessidade de pensar os valores não apenas em nível abstrato, mas nas condições concretas da desigualdade social, da exclusão e da violência histórica.




7 SÍNTESE: QUAIS VALORES SÃO POSSÍVEIS PARA A HUMANIDADE HOJE?

A partir do diálogo entre Nietzsche, existencialismo, psicanálise, crítica social e teoria do poder, pode-se afirmar que os valores contemporâneos não podem mais fundamentar-se:


Nem na religião tradicional;


Nem em moralismos universais abstratos;


Nem na razão instrumental.



Os valores possíveis para a humanidade hoje se constroem a partir de cinco eixos fundamentais:


1. Liberdade responsável (existencialismo);



2. Elaboração do inconsciente e dos afetos (psicanálise);



3. Crítica das estruturas de dominação (crítica social);



4. Vigilância permanente sobre os mecanismos de poder (Foucault);



5. Afirmação da vida e criação de sentidos (Nietzsche).


Esses valores não são absolutos, mas históricos, críticos e abertos à transformação.



8 METODOLOGIA

A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, qualitativa e de natureza hermenêutica-crítica. Foram analisadas obras primárias de Nietzsche e de seus principais intérpretes no existencialismo, na psicanálise, na teoria crítica, na pós-modernidade e na filosofia brasileira. Utilizou-se o método genealógico como instrumento de interpretação dos valores.


9 CONCLUSÃO

A filosofia de Nietzsche inaugura a mais profunda crise dos fundamentos morais da história ocidental. Essa crise, longe de representar apenas decadência, abre a possibilidade de criação de novos valores para a humanidade. O existencialismo transforma essa tarefa em exigência ética da liberdade. A psicanálise revela os limites inconscientes dessa criação. A crítica social e a teoria do poder demonstram que os valores são produzidos em contextos históricos marcados pela dominação.

A recepção brasileira de Nietzsche, especialmente em Cruz Costa, Giacoia Júnior e Safatle, mostra que a construção dos valores deve considerar as desigualdades, a violência social e o sofrimento psíquico produzidos pelo capitalismo contemporâneo.

Conclui-se que os valores possíveis para a humanidade hoje não podem ser impostos como verdades eternas, mas precisam ser construídos criticamente, afirmando a vida, a dignidade, a liberdade, a justiça social e a responsabilidade histórica.



REFERÊNCIAS 

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2019.

CRUZ COSTA, João. Contribuição à história das ideias no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

GIACOIA JÚNIOR, Oswaldo. Nietzsche: o humano como experimento. São Paulo: UNESP, 2005.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: Cosac Naify, 2016.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.

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