LIDERANÇA, IDENTIDADE E ANCESTRALIDADE NA JUVENTUDE NEGRA: UMA ANÁLISE SOCIOLÓGICA A PARTIR DO FEMINISMO NEGRO
Este resumo expandido analisa a construção da liderança e do protagonismo juvenil feminino negro a partir do depoimento de uma estudante da rede pública, articulando identidade, ancestralidade e práticas educativas. O estudo fundamenta-se em autoras do feminismo negro, como Crenshaw (1989), Collins (2019), Carneiro (2020), Gonzalez (1988), Hooks (1995) e Gomes (2017). Além do relato autobiográfico, incorpora-se um recorte empírico atual: a recente mobilização de jovens negras em espaços escolares no Brasil, especialmente em coletivos estudantis de combate ao racismo. Os resultados indicam que a liderança juvenil negra é construída por meio de práticas de cuidado, empatia, solidariedade e identificação com figuras femininas familiares. Observou-se que a ancestralidade atua como fonte de fortalecimento emocional e político e que os projetos de futuro das jovens estão fortemente ligados à educação como via de emancipação social. Conclui-se que políticas educacionais que valorizem narrativas negras são fundamentais para fortalecer a agência juvenil.
Palavras-chave: juventude; feminismo negro; liderança; ancestralidade; educação.
INTRODUÇÃO
A compreensão das formas de liderança exercidas por jovens negras é relevante para a sociologia contemporânea, pois evidencia processos de resistência identitária em um país marcado por desigualdades raciais (COLLINS, 2019; CARNEIRO, 2020). A escola, enquanto espaço socializado, torna-se campo privilegiado para observar práticas de protagonismo e produção de subjetividades.
Além do relato fornecido pela estudante participante, este estudo incorpora um exemplo material atual: a mobilização de jovens negras em coletivos estudantis antirracistas registrados entre 2022 e 2024 em escolas públicas brasileiras, conforme relatado por pesquisas recentes em educação (GOMES, 2017).
A construção da liderança e do protagonismo de jovens negras constitui um campo central de investigação na sociologia do feminismo da negritude, especialmente no contexto escolar brasileiro. Este estudo analisa como identidade, ancestralidade e referências familiares estruturam a agência social de uma estudante da rede pública.
OBJETIVO
Analisar como uma jovem negra compreende e exerce liderança, considerando referências familiares, identidade racial, ancestralidade e perspectivas de futuro, relacionando essas dimensões ao feminismo negro e à sociologia da negritude.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo qualitativo, fundamentado em depoimento oral de uma estudante do Ensino Médio da rede pública. Os relatos foram analisados segundo os princípios da hermenêutica sociológica e à luz do feminismo negro, considerando interseccionalidade (CRENSHAW, 1989), amefricanidade (GONZALEZ, 1988) e processos identitários (GOMES, 2003; 2017).
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA, RESULTADOS E DISCUSSÃO
A interseccionalidade proposta por Crenshaw (1989) orienta a análise das experiências da estudante, ao evidenciar que raça e gênero produzem vivências específicas de opressão e resistência. Já Collins (2019) discute o pensamento feminista negro como projeto político-epistemológico que articula experiência, memória e ação.
O depoimento da estudante revela que sua liderança se baseia em práticas de cuidado: “ajudar mesmo em silêncio e estar ao lado de quem precisa”. Essa concepção alinha-se à teoria da ética do cuidado discutida por Hooks (1995), que entende a solidariedade como prática política.
A figura materna aparece como principal referência, reforçando o argumento de Carneiro (2020) sobre o papel das mulheres negras como estruturadoras de trajetórias resilientes dentro e fora da família.
A ancestralidade — simbolizada pela avó indígena — emerge como fonte de força e justiça. Essa fusão de matrizes africanas e indígenas aproxima-se do conceito de amefricanidade de Gonzalez (1988), que enfatiza identidades negras plurais no Brasil.
MATERIAL EMPÍRICO INCLUÍDO
Para além do caso individual, estudos recentes identificam que jovens negras brasileiras têm assumido papéis centrais em coletivos estudantis antirracistas, na mediação de conflitos raciais e em projetos de valorização cultural nas escolas (GOMES, 2017). Esses movimentos reforçam que a liderança juvenil negra não é um fenômeno isolado, mas socialmente disseminado.
A perspectiva de futuro apresentada pela estudante — formação superior, autonomia financeira e construção familiar — reforça o papel emancipador da educação (HOOKS, 1995). O protagonismo juvenil negro se fortalece pela articulação entre identidade, ancestralidade, educação e projetos de emancipação.
CONCLUSÃO
Conclui-se que a liderança juvenil feminina negra se estrutura pela combinação de referências afetivas, ancestralidade, consciência identitária e valorização da educação. A materialidade empírica utilizada demonstra que essa liderança ultrapassa o caso individual, refletindo movimentos coletivos recentes nas escolas brasileiras. Torna-se essencial que políticas públicas reconheçam e fortaleçam essas práticas, contribuindo para uma sociedade mais plural e antirracista.
FINANCIAMENTO
Não houve financiamento para este estudo.
REFERÊNCIAS
ALVES, Mariana Janaina dos Santos. Batuqueopiques: tradução cultural e negritude nos poemas de Léopold Sédar Senghor e Bruno de Menezes. Araraquara, 2021.
CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019.
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex. University of Chicago Legal Forum, v. 140, p. 139–167, 1989.
GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores/as. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 29, n. 1, p. 167–182, 2003.
GOMES, Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores: entre saberes e práticas. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural da amefricanidade. In: SILVA, Luiz (org.). Movimento negro educador. Petrópolis: Vozes, 1988.
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 1995.
Autores (as)
1Maria Francilene Barbosa de Souza
2Marilu Antunes da Silva
3Osni Valfredo Wagner
1E. E. B. Professora Claurinice Vieira Caldeira, São Francisco do Sul, SC, Brasil; 2FURB - Blumenau, SC, Brasil; 3E. E. B. Professora Claurinice Vieira Caldeira, São Francisco do Sul, SC, Brasil.
ANEXO A: QUESTIONÁRIO
1 Como você estudante sujeito percebe o espírito de liderança e protagonismo enquanto negra?
2 Se tem alguma inspiração da família ou fora de casa que se espelha?
3 Qual é a origem de pais e avós que têm esse espírito de guerreira?
4 Qual sua perspectiva de vida futura?
ANEXO B: RESPOSTAS
1 Basicamente, para mim, ser líder e protagonista, sendo negra, é mostrar força e inspirar, principalmente quando estou lidando com pessoas que estão com problema e que precisam de ajuda ou apoio, eu vejo que preciso ajudar a pessoa mesmo que ela não me peça e assim cria uma forma de ter empatia com o outro e mesmo que seja ficar em silêncio e só ficar ao lado dela.
2 Eu tenho grande inspiração na minha mãe, pois ela demonstra força, amor e coragem. Amo o fato que ela me mostra o melhor da vida da maneira mais simples e ao mesmo tempo simbólica, tornando assim um momento especial e criando memórias comigo.
3 Eu tenho uma avó que é descendente de bugre, eu não cheguei a conhecer ela mas meus pais me disseram que eu tenho a mesma força de vontade dela e o espírito de justiça dela. Pois na época que ela estava viva, muitos falavam que ela não gostava de desigualdade e que sim gostava do certo pelo certo e logo após dela falecer e se passou um bom tempo meu avô me disse que eu tenho o mesmo espírito de minha avó. Que eu ando certo é que eu puxei o mesmo espírito de força dela.
4 Minha perspectiva de vida para o futuro é : me formar na escola, fazer minhas faculdades que são como bióloga e veterinária. Terminar meus cursos e ter a oportunidade de ter mais cursos. Ter meu terreno e ter minha própria casa, e assim que eu terminar tudo, eu posso ter uma família.
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Maria Francilene Barbosa de Souza - Marilu Antunes da Silva e Osni Valfredo Wagner, participaram do evento:
IV Decolonidade Feminismo e Negritude
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