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O fundamentalismo religioso e político na escola: diagnóstico sociológico e implicações pedagógicas

A presente análise sobre os fenômenos do fundamentalismo religioso e político no contexto escolar brasileiro, especialmente na educação básica, a partir de uma perspectiva sociológica crítica. O objetivo central é compreender como formas de pensamento dogmático se manifestam entre estudantes e quais são seus impactos sobre o ensino, a ciência, a democracia e a convivência com a diversidade. Metodologicamente, propõe-se um instrumento diagnóstico baseado em escalas de concordância, inspirado em referenciais clássicos da sociologia e da psicologia social, como Adorno, Rokeach, Freire e Habermas. Os resultados esperados indicam que o fundamentalismo se expressa por meio da rejeição ao pensamento crítico, da absolutização da verdade, da desconfiança da ciência e da negação da pluralidade. Conclui-se que a escola possui papel estratégico na formação da consciência crítica e na promoção de uma cultura democrática, sendo o diagnóstico um recurso pedagógico fundamental para orientar intervenções educativas.

Palavras-chave: fundamentalismo; pensamento crítico; sociologia da educação; democracia; escola.


Introdução

Nas últimas décadas, observa-se o crescimento de discursos fundamentalistas tanto no campo religioso quanto no político, fenômeno que tem repercutido diretamente nas instituições educacionais. 

O fundamentalismo caracteriza-se pela crença em verdades absolutas, inquestionáveis e imunes ao debate racional, produzindo formas de pensamento dogmático, autoritário e avesso à pluralidade.

No contexto escolar, esse tipo de pensamento entra em tensão com os princípios constitucionais da educação brasileira, especialmente aqueles relacionados à formação integral do sujeito, à liberdade de aprender e ensinar, ao pluralismo de ideias e à laicidade do Estado. Assim, compreender como o fundamentalismo se manifesta entre estudantes torna-se um desafio central para a sociologia da educação.


Fundamentação teórica

O conceito de fundamentalismo, do ponto de vista sociológico, não se restringe à religião, mas refere-se a uma estrutura cognitiva e cultural baseada na certeza absoluta, na rejeição da dúvida e na hostilidade à diversidade (GIDDENS, 2005).

Adorno et al. (1950), ao analisarem a chamada “personalidade autoritária”, demonstram que sujeitos com alto grau de rigidez cognitiva tendem a obedecer cegamente autoridades, rejeitar grupos minoritários e apresentar forte intolerância ao pensamento divergente. 

Essa estrutura psicológica se articula diretamente com o dogmatismo, conceito desenvolvido por Rokeach (1960), entendido como fechamento do sistema de crenças e resistência à informação contraditória.

Paulo Freire (1996) contrapõe esse modelo ao propor a pedagogia da autonomia, baseada na problematização da realidade, no diálogo e na construção da consciência crítica. Para o autor, a educação libertadora exige a superação do pensamento mágico, fatalista e dogmático.

Habermas (2003), por sua vez, contribui ao afirmar que sociedades democráticas dependem da racionalidade comunicativa, isto é, da capacidade de argumentar, dialogar e reconhecer a legitimidade do outro, algo incompatível com estruturas fundamentalistas.


Metodologia

A pesquisa propõe um instrumento diagnóstico de natureza quantitativa, composto por 20 afirmações organizadas em quatro blocos temáticos:

Verdade e conhecimento;

Ciência e escola;

Democracia e diversidade;

Autoridade e obediência.

As respostas são estruturadas em escala Likert de cinco pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”. Quanto maior o grau de concordância com afirmações dogmáticas, maior a tendência ao pensamento fundamentalista.

O instrumento possui finalidade exclusivamente pedagógica, sem caráter punitivo ou classificatório, respeitando os princípios éticos da pesquisa educacional.

Resultados esperados e análise

Espera-se que estudantes com maior adesão ao pensamento fundamentalista apresentem:

Rejeição à ciência e ao conhecimento crítico;

Defesa de autoridades absolutas;

Intolerância à diversidade cultural, religiosa e política;

Visão negativa da democracia deliberativa;

Forte moralismo e rigidez cognitiva.

Esses elementos configuram o que a literatura denomina de “fechamento epistemológico”, ou seja, a incapacidade de revisar crenças à luz de novas evidências.

Do ponto de vista pedagógico, tais resultados indicam a necessidade de intervenções didáticas voltadas à educação científica, à alfabetização midiática, ao ensino de direitos humanos e ao fortalecimento da cultura democrática.


Discussão

O fundamentalismo no ambiente escolar não deve ser tratado como problema moral ou disciplinar, mas como fenômeno sociocultural e cognitivo. Sua origem está associada a fatores como insegurança social, crise de sentido, desinformação, bolhas digitais e discursos políticos autoritários.

A escola, enquanto espaço de socialização do conhecimento científico, possui papel estratégico na ruptura com o pensamento dogmático. Isso implica práticas pedagógicas que estimulem o debate, a problematização, a análise crítica de fontes e o respeito à pluralidade.

Negar a existência do fundamentalismo ou silenciar o tema equivale a renunciar à própria função social da educação.


Conclusão

Conclui-se que o fundamentalismo religioso e político representa um desafio estrutural para a educação contemporânea. Seu enfrentamento não se dá por meio de censura ou imposição ideológica, mas pela consolidação de uma pedagogia crítica, científica e democrática.

O diagnóstico sociológico, quando utilizado de forma ética e pedagógica, constitui ferramenta fundamental para compreender os padrões de pensamento dos estudantes e orientar práticas educativas comprometidas com a emancipação intelectual e cidadã.


Referências 

ADORNO, Theodor et al. The authoritarian personality. New York: Harper & Row, 1950.

BOURDIEU, Pierre. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. Petrópolis: Vozes, 1992.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005.

HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

ROKEACH, Milton. The open and closed mind. New York: Basic Books, 1960.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. Campinas: Autores Associados, 2008.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Brasília: MEC, 2018.

SANTA CATARINA. Currículo Base do Território Catarinense – CBTC. Florianópolis: SED, 2020.



Clicar abaixo e acessar em Word 

Questionário Diagnóstico fundamentalismo religioso e político 


Anexo

Questionário Diagnóstico – Pensamento Dogmático e Crítico



Objetivo: analisar concepções sobre ciência, democracia, diversidade e conhecimento.

Instruções ao estudante:

Marque apenas UMA alternativa em cada questão:

(A) Discordo totalmente

(B) Discordo

(C) Nem concordo nem discordo

(D) Concordo

(E) Concordo totalmente


Bloco 1 – Verdade e conhecimento


Existe apenas uma verdade absoluta que não pode ser questionada. R. (  )


A ciência é apenas mais uma opinião, como qualquer outra.

Questionar tradições é sinal de falta de valores. R. (  )


Professores não deveriam questionar crenças religiosas ou políticas. R. (  )


O pensamento crítico gera mais confusão do que aprendizado. R. (  )


Bloco 2 – Ciência e escola

A escola deveria ensinar mais valores morais do que ciência.

Universidades corrompem os jovens. R. (  )


Fake news podem ser verdadeiras se confirmam minhas crenças. R. (  )


A ciência ameaça a fé e os valores da família. R. (  )


Estudar diferentes pontos de vista é perda de tempo. R. (  )


Bloco 3 – Democracia e diversidade


A democracia funciona melhor com um líder forte do que com debate. R. (  )


Direitos humanos protegem pessoas que não merecem. R. (  )


Minorias têm direitos demais hoje em dia. R. (  )


Quem pensa diferente de mim está errado ou é inimigo. R. (  )


A diversidade ameaça os valores da sociedade. R. (  )


Bloco 4 – Autoridade e obediência


Problemas sociais se resolvem com obediência, fé e disciplina. R. (  )


Questionar autoridades é falta de respeito. R. (  )


A escola deveria ensinar os alunos a obedecer, não questionar. R. (  )


Discordar de ideias tradicionais é sinal de desvio moral. R. (  )


O mais importante é seguir regras, não pensar sobre elas. R. (  )


Chave de análise pedagógica (para o professor) pesquisador


Predominância de “Concordo” e “Concordo totalmente” nas questões →

indica tendência a pensamento dogmático/fundamentalista.


Predominância de “Discordo” e “Discordo totalmente” →

indica pensamento crítico, científico e democrático.


Base científica (para justificar no plano)

O instrumento dialoga com:

Adorno – Personalidade autoritária

Rokeach – Dogmatismo

Paulo Freire – Consciência crítica

Habermas – Racionalidade comunicativa

BNCC / CBTC-SC – Formação cidadã, pensamento crítico e cultura democrática.


Jurídica-pedagógica de proteção institucional:

Os dados serão utilizados exclusivamente para fins pedagógicos, sem identificação individual, respeitando os princípios da ética educacional e da legislação educacional brasileira.




























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