SURGIMENTO DAS ARAUCÁRIAS E A HIPÓTESE DE PLANTIO A PARTIR DO CHILE E PERU POR POVOS ORIGINÁRIOS: ANÁLISE CRÍTICA À LUZ DA PALEOBOTÂNICA, GENÉTICA E ETNOBOTÂNICA
A presente análise o surgimento evolutivo das araucárias (Araucariaceae) e examina criticamente a hipótese de que populações originárias do Chile e do Peru teriam introduzido ou plantado araucárias no Sul do Brasil. A partir de revisão bibliográfica em paleobotânica, filogenia molecular, biogeografia histórica e etnobotânica, demonstra-se que o gênero Araucaria surgiu no Mesozóico, com origem gondwânica, há aproximadamente 190–200 milhões de anos. A espécie Araucaria angustifolia, produtora do pinhão brasileiro, é nativa do Sul do Brasil e nordeste da Argentina, não havendo evidências científicas que sustentem introdução a partir dos Andes centrais. Entretanto, estudos reconhecem o manejo indígena e a domesticação de paisagens envolvendo araucárias tanto no Brasil quanto no Chile/Argentina. Conclui-se que há forte base científica para manejo cultural, mas não para introdução transandina da espécie brasileira.
Palavras-chave: Araucariaceae; paleobotânica; domesticação de paisagem; povos originários; biogeografia sul-americana.
1 INTRODUÇÃO
As araucárias pertencem à família Araucariaceae, um grupo relicto de coníferas do Hemisfério Sul. Atualmente, incluem três gêneros vivos: Araucaria, Agathis e Wollemia.
Na América do Sul, destacam-se duas espécies principais:
Araucaria angustifolia (Brasil e Argentina);
Araucaria araucana (Chile e Argentina).
O debate contemporâneo envolve duas dimensões distintas:
a) a origem evolutiva da linhagem;
b) o possível papel de povos originários na dispersão ou plantio dessas espécies.
As araucárias (Araucariaceae) surgiram há cerca de 190–200 milhões de anos na antiga Gondwana. A espécie Araucaria angustifolia é nativa do Sul do Brasil e nordeste da Argentina, enquanto Araucaria araucana ocorre no Chile e Argentina.
Povos originários, como Kaingang, Xokleng e Mapuche, utilizaram intensivamente as sementes, influenciando a distribuição e o manejo das árvores.
Evidências arqueológicas indicam domesticação de paisagem, mas não introdução de espécies entre regiões. Assim, a presença das araucárias reflete tanto evolução natural quanto práticas culturais indígenas.
2 ORIGEM EVOLUTIVA DAS ARAUCÁRIAS
2.1 Evidências Paleobotânicas
Registros fósseis indicam que a família Araucariaceae já estava presente no Jurássico Inferior (aprox. 190–200 Ma). Durante o Mesozóico, o grupo era amplamente distribuído na Gondwana, incluindo áreas correspondentes à atual América do Sul, Antártica e Austrália (HILL; BRODRIBB, 1999).
Escapa e Catalano (2013) demonstram, por meio de análises filogenéticas, que a diversificação inicial da família antecede a fragmentação continental definitiva da Gondwana.
2.2 Origem Geográfica
A literatura converge para uma origem gondwânica do grupo, não havendo indícios de surgimento andino tardio. A distribuição atual resulta de processos tectônicos e eventos de isolamento geográfico.
3 ARAUCÁRIA NO CHILE E PERU: CONTEXTO ANDINO
A espécie Araucaria araucana ocorre naturalmente na região centro-sul do Chile e oeste da Argentina.
É culturalmente associada ao povo Mapuche-Pehuenche, que tradicionalmente utiliza suas sementes (piñones) como base alimentar e elemento simbólico (REIS; LADIO; PERONI, 2014).
Não há ocorrência natural da espécie nos Andes centrais do Peru, nem evidência botânica de que populações peruanas tenham sido centro de domesticação primária de araucárias.
4 ARAUCARIA ANGUSTIFOLIA E O SUL DO BRASIL
A Araucaria angustifolia é considerada nativa do planalto sul-brasileiro e nordeste argentino.
Estudos palinológicos indicam que a expansão significativa das florestas com araucária ocorreu no Holoceno (últimos 10 mil anos), com intensificação nos últimos 1.500–2.000 anos (BEHLING, 2002; IRIARTE; BEHLING, 2007).
Pesquisas genéticas não apontam evidências de introdução recente a partir do Chile ou Peru. A estrutura genética das populações sugere evolução local (PÁDUA, 2015).
5 MANEJO INDÍGENA E DOMESTICAÇÃO DE PAISAGEM
Há evidências robustas de que povos indígenas do Sul do Brasil, como Kaingang e Xokleng, manejaram a paisagem favorecendo a araucária.
Reis, Ladio e Peroni (2014) propõem o conceito de “paisagens com araucária”, nas quais práticas culturais moldaram a distribuição das árvores.
Entretanto, manejo não equivale a introdução biogeográfica externa. A hipótese de plantio a partir do Chile/Peru carece de respaldo genético e paleobotânico.
6 DISCUSSÃO
A análise integrada demonstra:
Origem mesozóica gondwânica das araucárias;
Diversificação sul-americana anterior à ocupação humana recente;
Forte evidência de domesticação cultural e manejo;
Ausência de evidência científica de introdução da araucária brasileira a partir do Peru ou Chile.
Portanto, a tese de plantio transandino da Araucaria angustifolia não encontra sustentação na literatura especializada.
7 CONCLUSÃO
As araucárias surgiram há cerca de 200 milhões de anos na Gondwana. A espécie brasileira é nativa do Sul do Brasil e Argentina. Povos originários desempenharam papel relevante na modelagem da paisagem e possível ampliação local da espécie, mas não há evidências científicas que confirmem introdução a partir do Chile ou Peru.
REFERÊNCIAS
BEHLING, H. South and southeast Brazilian grasslands during Late Quaternary times. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, v. 177, p. 19-27, 2002.
ESCAPA, I. H.; CATALANO, S. A. Phylogenetic analysis of Araucariaceae. International Journal of Plant Sciences, v. 174, n. 1, p. 11-30, 2013.
HILL, R. S.; BRODRIBB, T. J. Southern conifers in time and space. Australian Journal of Botany, v. 47, p. 639-696, 1999.
IRIARTE, J.; BEHLING, H. The expansion of Araucaria forest in the southern Brazilian highlands during the Late Holocene. Quaternary International, v. 161, p. 56-65, 2007.
PÁDUA, J. A. R. Diversidade e estrutura genética de populações naturais de Araucaria angustifolia. 2015. Tese (Doutorado em Genética e Melhoramento) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2015.
REIS, M. S.; LADIO, A.; PERONI, N. Landscapes with Araucaria in South America: evidence for a cultural dimension. Ecology and Society, v. 19, n. 2, 2014.

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