A presente análise sobre a obra Descolonizando Afetos: experimentações sobre outras formas de amar, de Geni Núñez, a partir de uma perspectiva interdisciplinar que articula psicologia social, estudos decoloniais e sociologia dos afetos. O objetivo é compreender como a autora problematiza a colonização das emoções e das formas de amar, evidenciando a dimensão política dos afetos na contemporaneidade. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica de caráter qualitativo. Conclui-se que a descolonização dos afetos implica a desconstrução de modelos eurocêntricos de relacionamento, abrindo espaço para práticas mais plurais, comunitárias e emancipadoras.
Palavras-chave: descolonização; afetos; colonialidade; relações sociais; Geni Núñez.
1. Introdução
A discussão sobre afetos e relações sociais tem ganhado centralidade nos estudos contemporâneos das ciências humanas, especialmente a partir das abordagens decoloniais. Nesse contexto, a obra de Geni Núñez apresenta uma contribuição significativa ao propor que o colonialismo não se limita à dominação territorial e econômica, mas também estrutura formas de sentir, amar e se relacionar.
O livro Descolonizando Afetos evidencia que os padrões afetivos modernos são historicamente produzidos e vinculados a dispositivos de controle social, como a família nuclear, a monogamia compulsória e a moral cristã ocidental.
2. Fundamentação teórica: colonialidade dos afetos
A noção de colonialidade, desenvolvida por autores decoloniais, é ampliada por Núñez ao campo das emoções. Nesse sentido, os afetos deixam de ser compreendidos como experiências exclusivamente individuais e passam a ser analisados como construções sociais e históricas.
A autora demonstra que o modelo afetivo dominante na modernidade ocidental está associado a estruturas como patriarcado, capitalismo e heteronormatividade. Conforme análise de estudos recentes sobre a obra, o livro investiga como a monogamia se constitui como uma “monocultura dos afetos”, vinculada à ordem social colonial e cristã .
3. Descolonizar os afetos: contribuições da obra
A proposta central de Núñez consiste em questionar os regimes afetivos naturalizados. A descolonização dos afetos envolve:
- a crítica ao amor romântico idealizado;
- a valorização de vínculos comunitários e plurais;
- o reconhecimento de saberes indígenas e afro-diaspóricos;
- a desconstrução da lógica de posse nas relações.
A obra também destaca que formas não monogâmicas e coletivas de relacionamento não são “novidades contemporâneas”, mas práticas historicamente existentes em diversas cosmologias indígenas.
Segundo interpretações da obra, trata-se de um movimento de resistência cultural e política que busca reconfigurar o modo como as relações humanas são organizadas .
4. Afetos como campo político
Um dos principais aportes teóricos do livro é a compreensão de que os afetos são também um campo político. Ou seja, amar, cuidar e se relacionar não são ações neutras, mas atravessadas por estruturas de poder.
Nesse sentido, a obra dialoga com perspectivas sociológicas que entendem o cotidiano como espaço de reprodução ou transformação social. A crítica de Núñez evidencia como desigualdades de gênero, raça e classe se expressam nas dinâmicas afetivas.
Assim, a descolonização dos afetos implica também transformação social mais ampla, relacionada à justiça epistêmica e à valorização de epistemologias indígenas.
5. Considerações finais
Conclui-se que Descolonizando Afetos contribui significativamente para os estudos contemporâneos sobre relações sociais ao deslocar o debate do campo individual para o campo estrutural e político.
A obra de Geni Núñez demonstra que os afetos são historicamente produzidos e, portanto, podem ser transformados. Descolonizar os afetos significa romper com padrões normativos de amor e abrir espaço para formas mais plurais, coletivas e emancipatórias de existência.
Referências (ABNT – 2023)
NÚÑEZ, Geni. Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Paidós, 2023.
SILVA, Allyson Darlan Moreira da; SOUZA, Karlla Christine Araújo. Sobre descolonizar os afetos: uma perspectiva crítica decolonial de Geni Núñez. Monxorós Revista em Ciências Sociais e Humanas, v. 1, n. 4, 2025.
Comentários
Postar um comentário