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MANEJO AGROECOLÓGICO E CORREÇÃO DE SOLO ÁCIDO NO CULTIVO DE HORTALIÇAS EM CLIMA SUBTROPICAL ÚMIDO Análise do pH do solo, exigências edafoclimáticas e práticas sustentáveis no cultivo de Allium porrum, Ocimum basilicum, Daucus carota, Eruca sativa e Cichorium intybus

Este estudo analisa o manejo agroecológico de hortaliças em solo ácido (pH < 7), com foco na correção da acidez e nas exigências edafoclimáticas das culturas Allium porrum (alho-poró), Ocimum basilicum (manjericão), Daucus carota (cenoura), Eruca sativa (rúcula) e Cichorium intybus (almeirão), no município de São Francisco do Sul (SC), caracterizado por clima subtropical úmido. A metodologia baseou-se em revisão bibliográfica especializada. Os resultados indicam que, embora o solo naturalmente ácido seja comum na região, a correção parcial para pH entre 6,0 e 6,5 favorece significativamente a disponibilidade de nutrientes e o desenvolvimento das plantas. Conclui-se que práticas agroecológicas associadas à calagem e adubação orgânica promovem sistemas produtivos sustentáveis e eficientes.

Palavras-chave: agroecologia; pH do solo; correção da acidez; hortaliças; sustentabilidade.


1 INTRODUÇÃO

No litoral norte de Santa Catarina, especialmente em São Francisco do Sul, predominam solos naturalmente ácidos devido à alta pluviosidade e lixiviação de nutrientes. Esse fator influencia diretamente o desenvolvimento das culturas agrícolas.

Segundo Primavesi (2016), solos ácidos tendem a apresentar baixa disponibilidade de nutrientes essenciais e maior presença de alumínio tóxico. Assim, a correção do pH torna-se prática fundamental para a produção agrícola.

O presente estudo tem como objetivo analisar a necessidade de correção de solos ácidos e sua relação com o manejo agroecológico no cultivo de hortaliças.

A cinza vegetal pode ser utilizada como corretivo de solo, elevando rapidamente o pH devido à presença de cálcio e potássio.

Após sua aplicação, recomenda-se aguardar entre 7 e 15 dias antes do plantio.

Em casos controlados, o plantio pode ocorrer após 3 a 5 dias, desde que a cinza esteja bem incorporada.

Esse intervalo evita danos às sementes e permite o equilíbrio químico do solo.

Seu uso é eficiente em manejo agroecológico, especialmente em solos ácidos.


2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Classificação do pH do solo

O potencial hidrogeniônico (pH) classifica os solos em:

Ácido: pH < 7

Neutro: pH = 7

Alcalino: pH > 7

De acordo com a EMBRAPA (2022), a maioria das hortaliças se desenvolve melhor em solos levemente ácidos.


2.2 Problemas do solo ácido

Solos com pH baixo apresentam:

Baixa disponibilidade de fósforo

Deficiência de cálcio e magnésio

Toxicidade por alumínio

Redução da atividade microbiana

Esses fatores comprometem o crescimento radicular e a produtividade.


2.3 Correção da acidez do solo (calagem)

A principal técnica de correção é a calagem, que consiste na aplicação de calcário.

Funções da calagem:

Elevar o pH do solo

Neutralizar o alumínio tóxico

Fornecer cálcio e magnésio

Segundo Filgueira (2013), a calagem deve ser feita preferencialmente antes do plantio.

2.4 pH ideal para hortaliças

Cultura

pH ideal

Alho-poró

6,0 – 7,0

Manjericão

6,0 – 6,8

Cenoura

6,0 – 6,5

Rúcula

6,0 – 7,0

Almeirão

6,0 – 7,0

👉 Portanto:

✔ Solo ácido precisa de correção parcial

✔ Não precisa ficar totalmente neutro

2.5 Agroecologia e equilíbrio do solo

A agroecologia propõe:

Uso de matéria orgânica

Redução de insumos químicos

Equilíbrio biológico do solo

Altieri (2012) destaca que solos vivos são mais resilientes e produtivos.


3 METODOLOGIA

A pesquisa é qualitativa, baseada em revisão bibliográfica de obras científicas, manuais técnicos e estudos da EMBRAPA.

Foram analisados:

pH do solo

Necessidade de correção

Adaptação das culturas

Técnicas agroecológicas.


4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 Situação do solo em São Francisco do Sul

Devido ao clima subtropical úmido:

Solos tendem a ser ácidos naturalmente

Ocorre lixiviação de nutrientes

Necessidade frequente de correção.


4.2 Correção do solo ácido na prática

Para hortaliças:

✔ Aplicar calcário (calagem)

✔ Incorporar ao solo 20–30 cm

✔ Realizar antes do plantio

👉 Alternativas agroecológicas complementares:

Cinza vegetal

Farinha de ossos

Compostagem


4.3 Exigências de luz e solo no cultivo

Manjericão: sol pleno

Cenoura: sol ou meia-sombra

Alho-poró: adaptável

Rúcula e almeirão: meia-sombra ideal

No clima úmido: ✔ Evitar excesso de água

✔ Usar canteiros elevados

✔ Garantir drenagem


4.4 Manejo agroecológico integrado

Adubação orgânica

Húmus e esterco → melhoram pH naturalmente

Cobertura do solo

Reduz impacto da chuva

Consórcio

Reduz pragas

Rotação

Mantém fertilidade


5 TEMPO DE REAÇÃO DA CALAGEM E INTERVALO PARA PLANTIO

A calagem é uma prática fundamental no manejo de solos ácidos, especialmente em regiões de clima subtropical úmido, como São Francisco do Sul, onde a lixiviação de bases é intensa. A aplicação de calcário tem como objetivo elevar o pH do solo, neutralizar o alumínio tóxico e fornecer cálcio e magnésio às plantas.

Do ponto de vista químico, a reação do calcário no solo não é imediata, dependendo de fatores como:

Granulometria do calcário

Umidade do solo

Temperatura

Incorporação ao perfil do solo

Segundo a literatura agronômica, o tempo ideal entre a aplicação do calcário e o plantio varia de:

👉 30 a 90 dias antes do plantio

Esse intervalo permite:

Reação química do corretivo

Elevação gradual do pH

Equilíbrio dos nutrientes no solo

De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a eficiência da calagem é significativamente maior quando o calcário é incorporado ao solo na profundidade de 20 a 30 cm, especialmente em sistemas de preparo convencional ou canteiros elevados.

Em sistemas agroecológicos, recomenda-se associar a calagem com práticas complementares, tais como:

Adição de matéria orgânica (compostagem e húmus)

Uso de cobertura vegetal (mulching)

Rotação de culturas

Essas práticas contribuem para a melhoria da estrutura do solo e favorecem a atividade microbiológica, acelerando o processo de estabilização do pH.

Entretanto, em situações emergenciais, pode-se realizar o plantio com intervalo mínimo de:

👉 15 a 20 dias após aplicação, desde que:

O calcário seja bem incorporado

O solo esteja úmido

A dose aplicada não seja excessiva

Todavia, essa prática pode não garantir a máxima eficiência agronômica da correção da acidez.

Portanto, para culturas como Allium porrum, Ocimum basilicum, Daucus carota, Eruca sativa e Cichorium intybus, recomenda-se priorizar o intervalo de 30 a 60 dias, garantindo melhores condições de desenvolvimento radicular e absorção de nutrientes.



Uso de cinza vegetal como corretivo de solo e intervalo para plantio

A cinza vegetal é um insumo amplamente utilizado em sistemas agroecológicos como fonte de nutrientes e corretivo da acidez do solo. Rica em cálcio, potássio e magnésio, sua aplicação promove elevação do pH, contribuindo para a neutralização parcial da acidez (PRIMAVESI, 2016).

Diferentemente do calcário, a cinza apresenta reação mais rápida no solo, devido à sua maior solubilidade. No entanto, essa característica exige maior cuidado no manejo, uma vez que a elevação abrupta do pH pode causar danos às sementes e plântulas.

O intervalo recomendado entre a aplicação de cinza vegetal e o plantio situa-se entre 7 e 15 dias, permitindo a estabilização química do solo e evitando efeitos fitotóxicos. Em situações específicas, pode-se reduzir esse período para 3 a 5 dias, desde que a aplicação seja moderada e bem incorporada ao solo.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a utilização de insumos alternativos deve estar associada ao manejo orgânico do solo, incluindo a adição de matéria orgânica e cobertura vegetal, visando maior equilíbrio nutricional e biológico.

Portanto, a cinza vegetal constitui alternativa viável em sistemas agroecológicos, desde que aplicada com critério técnico e respeitando o tempo mínimo de reação no solo.



CONCLUSÃO

Conclui-se que solos ácidos são comuns em regiões subtropicais úmidas, como São Francisco do Sul, sendo necessária sua correção para o cultivo eficiente de hortaliças.

A faixa ideal de pH entre 6,0 e 6,5 proporciona melhor absorção de nutrientes e desenvolvimento vegetal. O manejo agroecológico, aliado à correção da acidez, constitui estratégia sustentável e eficiente para produção agrícola.


ADAPTAÇÃO DE PLANTAS AO pH DO SOLO

🧪 1. SOLO ÁCIDO (pH < 7)

👉 Características:

Comum em regiões úmidas (como São Francisco do Sul)

Menor disponibilidade de alguns nutrientes

🌿 Plantas que se adaptam bem:

🥔 Batata

🍍 Abacaxi

🍠 Batata-doce

🌿 Chá (Camellia sinensis)

🍓 Morango

🌱 Samambaias

👉 Algumas hortaliças toleram:

Cenoura

Rúcula

Almeirão

⚖️ 2. SOLO NEUTRO (pH = 7)

👉 Características:

Equilíbrio químico ideal

Melhor disponibilidade de nutrientes

🌿 Plantas que preferem:

🥬 Alface

🥕 Cenoura

🌿 Manjericão

🌽 Milho

🍅 Tomate

🥒 Pepino

👉 Melhor condição para: ✔ maioria das hortaliças

🪨 3. SOLO ALCALINO (pH > 7)

👉 Características:

Menor disponibilidade de micronutrientes

Pode limitar crescimento de muitas hortaliças

🌿 Plantas adaptadas:

🌿 Lavanda

🌵 Alecrim

🌿 Sálvia

🌱 Espinafre

🌿 Beterraba

👉 Mais comuns: ✔ Plantas mediterrâneas


REFERÊNCIAS 

ALTIERI, Miguel. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

BRASIL. Ministério da Agricultura. Manual de hortaliças. Brasília, 2020.

EMBRAPA. Sistema de produção de hortaliças. Brasília: EMBRAPA, 2022.

FILGUEIRA, F. A. R. Novo manual de olericultura. 3. ed. Viçosa: UFV, 2013.

PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo. São Paulo: Nobel, 2016.

SANTA CATARINA. EPAGRI. Produção de hortaliças no Sul do Brasil. Florianópolis, 2021.

EMBRAPA. Calagem e adubação para culturas agrícolas. Brasília: EMBRAPA, 2022.

FILGUEIRA, F. A. R. Novo manual de olericultura. 3. ed. Viçosa: UFV, 2013.

PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo. São Paulo: Nobel, 2016.

RAIJ, B. van. Fertilidade do solo e manejo de nutrientes. Piracicaba: IPNI, 2011.

EMBRAPA. Adubação alternativa e uso de resíduos orgânicos. Brasília: EMBRAPA, 2022.

PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo. São Paulo: Nobel, 2016.

GLIESSMAN, Stephen. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: UFRGS, 2009.













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