Museu do Sambaqui (Cemitério) de Joinville (SC): Arqueologia, Territorialidade e Continuidade Indígena no Litoral Norte Catarinense
A presente análise sobre os sambaquis da região de Joinville, com ênfase nos sítios arqueológicos da localidade de Vila da Glória, abordando sua função enquanto espaços funerários e de organização social de populações caçadoras-coletoras há cerca de 10 mil anos. Discute-se a formação dos sambaquis como estruturas compostas por conchas, restos faunísticos e artefatos culturais, além da transição para grupos ceramistas há aproximadamente 1.300 anos. O estudo também considera a presença histórica e contemporânea de povos indígenas, como Kaingang, Laklãnõ/Xokleng e Guarani, evidenciando processos de continuidade, resistência e retomada territorial no século XX.
Palavras-chave: Sambaqui; Arqueologia; Povos indígenas; Litoral catarinense; Cultura material.
1. Introdução
Os sambaquis do litoral sul do Brasil constituem um dos mais importantes patrimônios arqueológicos da América do Sul. Na região de Joinville e entorno, estima-se a existência de cerca de 200 sítios arqueológicos, revelando uma longa ocupação humana.
Essas formações, conhecidas como sambaquis (do tupinamba: “monte de conchas”), são testemunhos materiais de sociedades complexas que habitaram o litoral há milhares de anos.
2. Formação e Características dos Sambaquis
Os sambaquis possuem origem associada a grupos caçadores-coletores-pescadores, datados de aproximadamente 10 mil anos antes do presente. Estruturalmente, são compostos por:
Conchas de moluscos
Restos de fauna marinha e terrestre
Ossos humanos (função funerária)
Artefatos líticos (ferramentas de pedra)
Adornos produzidos com conchas
Vestígios de madeira
Na região da Vila da Glória, há sambaquis com cerca de 6 mil anos, evidenciando ocupação contínua e intensa.
3. Sambaquis como Espaços Funerários
Diversos estudos indicam que muitos sambaquis funcionavam como cemitérios estruturados, revelando práticas ritualísticas complexas. Os enterramentos incluem:
Sepultamentos primários e secundários
Uso de objetos como oferendas (conchas, ferramentas, adornos)
Organização espacial dos corpos
Esses elementos indicam sistemas simbólicos elaborados e possíveis hierarquias sociais.
4. Cultura Material e Tecnologia
Os grupos sambaquieiros desenvolveram uma cultura material diversificada:
Ferramentas de pedra lascada e polida
Objetos ornamentais de conchas
Estruturas habitacionais com madeira
Técnicas de manejo de recursos costeiros
A partir de aproximadamente 1.300 anos atrás, observa-se a presença de grupos ceramistas, indicando transformações culturais e possíveis contatos entre populações.
5. Povos Indígenas e Continuidade Cultural
A região foi posteriormente ocupada por diferentes povos indígenas:
5.1 Kaingang e Laklãnõ/Xokleng
Os povos Kaingang e Laklãnõ (Xokleng) desenvolveram práticas associadas ao uso da floresta, incluindo o consumo de alimentos como a taquara.
5.2 Guarani
Os Guarani chegaram à região há cerca de 600 anos, estabelecendo aldeias com características específicas:
Produção cerâmica
Construção de vasilhames
Práticas funerárias com enterramento em urnas
Uso de rochas e conchas em atividades cotidianas
6. Impactos da Colonização Europeia
A chegada dos europeus, a partir do século XVI, provocou profundas transformações:
Desestruturação dos modos de vida indígenas
Apropriação territorial
Violência e deslocamento populacional
6.1 Chegada Africana e a Mão de Obra na Produção Açucareira (1777–1823)
A inserção da população africana escravizada no litoral catarinense, especialmente na região de Joinville e entorno de Vila da Glória, está diretamente relacionada às dinâmicas coloniais do sul do Brasil no final do século XVIII e início do XIX. Embora a economia açucareira tenha se consolidado com maior intensidade em outras regiões do território colonial, como o Nordeste, sua presença em áreas do sul também se estruturou por meio do trabalho compulsório africano.
A partir de 1777, com a redefinição das fronteiras coloniais após o Tratado de Santo Ildefonso, intensificaram-se os processos de ocupação e exploração econômica no litoral sul, incluindo a introdução de práticas agrícolas voltadas à subsistência e à produção mercantil. Nesse contexto, a utilização de mão de obra africana escravizada passou a compor a base produtiva de engenhos de menor escala.
Os africanos e seus descendentes foram submetidos a regimes de trabalho forçado, atuando não apenas na cultura da cana-de-açúcar, mas também em atividades complementares como a pesca, a coleta e o transporte de mercadorias. Esse processo contribuiu para a formação de uma sociedade colonial marcada pela diversidade étnica e por relações profundamente desiguais.
Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, especialmente até 1823, observa-se uma reorganização das estruturas produtivas e sociais, influenciada por transformações políticas mais amplas, como a Independência do Brasil. Ainda que a independência não tenha alterado imediatamente a condição da população escravizada, ela marcou o início de mudanças institucionais que impactariam gradualmente o sistema escravista.
Do ponto de vista cultural, a presença africana deixou marcas significativas na região, perceptíveis em práticas alimentares, religiosidade, técnicas agrícolas e formas de organização social. Essas contribuições integram o processo histórico mais amplo de formação da sociedade brasileira, evidenciando que o litoral catarinense, embora periférico em relação aos grandes centros açucareiros, também participou do sistema atlântico escravista.
A análise desse período permite compreender que a ocupação colonial não se deu de forma isolada, mas articulada a redes econômicas e políticas globais, nas quais a exploração do trabalho africano desempenhou papel central.
7. Retomadas Indígenas no Século XX
No século XX, observa-se o retorno e reorganização de comunidades Guarani no norte catarinense, reafirmando identidades e territorialidades.
Esses processos demonstram que os povos indígenas não pertencem apenas ao passado arqueológico, mas são sujeitos contemporâneos em luta por direitos.
8. Considerações Finais
Os sambaquis da região de Joinville e Vila da Glória constituem importantes registros de longa duração histórica, conectando:
Sociedades pré-coloniais
Transformações culturais
Presença indígena contínua
A compreensão desses sítios como espaços funerários e culturais amplia a valorização do patrimônio arqueológico e reforça a necessidade de preservação e reconhecimento dos povos originários.
Referências (ABNT NBR 6023:2023)
GASPAR, Maria Dulce. Sambaquis: arqueologia do litoral brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
PROUS, André. Arqueologia brasileira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2006.
NEVES, Eduardo Góes. Arqueologia da Amazônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2013.
SCHMITZ, Pedro Ignácio. Sambaquis e sociedades costeiras. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1991.
NOELLI, Francisco Silva. Os Guarani antes da conquista europeia. Revista USP, São Paulo, n. 44, p. 72–85, 1999.
IBGE. Povos indígenas no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2022
CARLI, Mateus. Escravidão e presença africana no sul do Brasil: dinâmicas regionais e conexões atlânticas. Curitiba: Appris, 2021.
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A paz das senzalas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio dos Santos. Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Anexos
Anexo A: Bioantropologia: O Esqueleto como Documento
A Bioantropologia estuda as populações humanas do passado através de seus remanescentes ósseos. Diferente de um objeto inanimado, o esqueleto é um tecido vivo que reage ao meio ambiente, à dieta e ao estilo de vida.
Através da Osteobiografia (a história de vida escrita nos ossos), pesquisadores conseguem identificar:
- Perfil Biológico: Sexo, idade ao morrer e ancestralidade.
- Paleopatologia: Marcas de doenças, carências nutricionais (anemia) e traumas.
- Marcadores de Estresse Ocupacional: Desgastes que revelam as atividades físicas repetitivas realizadas pelo indivíduo em vida.
Anexo B: Curadoria e Conservação
A curadoria arqueológica envolve a gestão técnica e científica do acervo. Este processo inclui:
Limpeza e Estabilização: Remoção de sedimentos e preservação física.
Análise Técnica: Medição (osteometria/morfologia) e datação.
Catalogação: Registro sistemático para pesquisa e exposição.
Aqui, a ciência protege a história
Anexo C: Lítico: A Tecnologia da Pedra
A pedra foi a primeira grande matéria-prima da humanidade. Devido à sua resistência, os artefatos líticos são, muitas vezes, os principais sobreviventes do tempo, permitindo-nos estudar grupos de caçadores-coletores e horticultores que habitaram as regiões de Santa Catarina e do Paraná.
Nesta vitrine, observamos duas tecnologias principais:
Lascamento: Impactos controlados para criar bordas cortantes (facas, pontas de projétil).
Polimento: Fricção constante para dar forma a instrumentos robustos, como os machados e mãos de gral utilizados no processamento de alimentos e manejo florestal.
Anexo D: Fauna: Subsistência, Tecnologia e Adorno
A relação entre as populações antigas e a fauna local ia muito além da alimentação. Os animais forneciam recursos essenciais para a sobrevivência e para a expressão cultural. Nesta vitrine, vemos como diferentes partes de animais foram transformadas:
- Ferramentas e Armas: Dentes de tubarão e ossos de mamíferos eram transformados em pontas de projétil, perfuradores e cortadores.
- Adornos: Conchas de moluscos e vértebras de peixes eram polidas e perfuradas para a criação de colares e ornamentos corporais, indicando status e identidade.
- Vestígios Alimentares: Cascas de moluscos e restos ósseos com marcas de corte revelam a dieta diversificada baseada na caça e na coleta marinha.
Anexo E: Fibras Vegetais: Tramas de Identidade e Saber
O trançado de fibras vegetais é uma das expressões mais refinadas da cultura material dos povos originários. Mais do que objetos utilitários, cestos e balaios são portadores de grafismos e técnicas que identificam grupos como os Kaingang, Guarani e Xokleng.
Nesta vitrine, observamos a diversidade de matérias-primas — como o taquaruçu, o cipó e o jerivá — transformadas através de diferentes técnicas:
- Arqueado e Sarja: Criam estruturas resistentes para o transporte de alimentos.
- Iconografia: Os padrões geométricos não são apenas decorativos; eles comunicam a organização social, a cosmologia e a relação espiritual com a natureza.
A imagem apresenta uma vitrine museológica dedicada à cerâmica africana e afro-brasileira, evidenciando saberes tradicionais transmitidos por gerações. Observam-se diferentes peças — potes, tigelas, vasos e utensílios — produzidos manualmente com argila, moldados e queimados em processos artesanais. Essas técnicas têm origem em diversas regiões do continente africano e foram trazidas ao Brasil por populações escravizadas, constituindo um importante legado cultural.
A cerâmica não era apenas utilitária, mas também simbólica. Muitos desses objetos eram utilizados no preparo de alimentos, armazenamento de água e em práticas religiosas, revelando a relação entre cultura material e espiritualidade. A presença de formas variadas e acabamentos distintos indica conhecimento técnico sofisticado, adaptado aos recursos locais.
Ao fundo, a imagem de uma mulher e uma criança produzindo cerâmica reforça o caráter intergeracional do saber, no qual o conhecimento é transmitido oralmente e pela prática. Esse processo evidencia a resistência cultural dos povos africanos e seus descendentes, mesmo diante das condições impostas pela escravidão.
No contexto brasileiro, especialmente em regiões como o litoral de Santa Catarina, essas práticas contribuíram para a formação de identidades culturais híbridas, articulando influências africanas, indígenas e europeias. Assim, a cerâmica se torna não apenas um objeto, mas um testemunho histórico da presença africana e de sua importância na construção da sociedade brasileira.
O que vemos aqui é o resultado de uma técnica refinada de lascamento. As pontas de projétil (comumente chamadas de pontas de flecha ou lança) eram fabricadas a partir de rochas como o quartzo, calcedônia ou silex.
- Morfologia: O formato da base e das "barbas" da ponta indica como ela era fixada na haste de madeira.
- Diversidade: Diferentes tamanhos e pesos sugerem usos distintos — desde pequenas flechas para aves e pequenos mamíferos até pontas robustas para animais maiores.
- Sítio Arqueológico: Note as peças identificadas como "Pontas do Sítio"; elas são registros diretos da presença de grupos caçadores-coletores em nossa região.







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