Pular para o conteúdo principal

O uso do termo “residuário” na gestão de resíduos sólidos: fundamentos conceituais e implicações comunicacionais

O termo “residuário” deriva de “resíduo”, do latim residuum, que designa aquilo que permanece após um processo de uso, transformação ou consumo. No campo técnico-científico, “residuário” é um adjetivo que qualifica sistemas, espaços, fluxos e práticas relacionados à geração, manejo e destinação de resíduos. Sua utilização é recorrente em áreas como engenharia sanitária, gestão ambiental e políticas públicas, especialmente quando se pretende conferir precisão conceitual e abrangência analítica aos processos envolvidos no ciclo dos resíduos sólidos.

No contexto brasileiro, a abordagem residuária encontra respaldo na Lei nº 12.305/2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a qual estabelece princípios como a não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos, bem como a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. Nessa perspectiva, o termo “residuário” não se limita ao objeto material (resíduo), mas engloba um sistema integrado de gestão que envolve atores sociais, tecnologias, educação ambiental e logística reversa.

A adoção do termo em materiais educativos ou sinalizações — como “ponto residuário” — pode ser interpretada como uma tentativa de elevar o nível técnico da comunicação, alinhando-a ao vocabulário acadêmico e institucional. Entretanto, sob a ótica da educação ambiental crítica e da comunicação pública, tal escolha pode gerar barreiras de compreensão, uma vez que “residuário” não integra o repertório linguístico cotidiano da maioria da população. Assim, há uma tensão entre rigor conceitual e efetividade comunicacional.

Do ponto de vista pedagógico, a clareza semântica é um elemento central para a mudança de comportamento. Termos como “coleta seletiva” ou “recicláveis” apresentam maior inteligibilidade imediata e, portanto, maior potencial de engajamento social. Ainda assim, a introdução gradual de termos técnicos como “residuário” pode ser válida em contextos educativos formais, desde que acompanhada de mediação explicativa, contribuindo para a alfabetização científica e ambiental dos sujeitos.

Conclui-se que o uso do termo “residuário” é conceitualmente adequado e tecnicamente preciso, sobretudo em contextos acadêmicos e normativos. Todavia, sua aplicação em espaços de comunicação direta com o público deve considerar critérios de acessibilidade linguística e eficácia pedagógica, buscando equilibrar rigor científico e compreensão social, conforme preconizam as diretrizes contemporâneas de educação ambiental e gestão participativa dos resíduos.

Referências (ABNT NBR 6023:2023)

BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 3 ago. 2010.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Brasília, DF: MMA, 2022.

LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.

LOUREIRO, Carlos Frederico Bernardo. Educação ambiental e movimentos sociais. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

PHILIPPI JR., Arlindo; GALVÃO JR., Alceu de Castro (org.). Gestão integrada de resíduos sólidos. Barueri: Manole, 2012.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

REALIDADE, VERDADE E IDEOLOGIA: ENTRE A CIÊNCIA, A RELIGIÃO E A CRÍTICA FREIREANA

A presente análise discore sobre as distinções conceituais entre realidade, verdade e ideologia a partir de uma abordagem filosófica e crítica, articulando contribuições da epistemologia científica, da tradição platônica, da sociologia do conhecimento e da pedagogia crítica de Paulo Freire. Parte-se da compreensão de que a verdade não se confunde com a realidade em si, mas constitui uma construção histórica e social mediada por linguagens, interesses e estruturas de poder. Analisa-se o estatuto da verdade na ciência, na religião e na ideologia, demonstrando como determinadas “verdades” operam como instrumentos de dominação ou libertação. Ao final, sustenta-se que a busca da verdade exige uma postura rigorosamente crítica, dialógica e emancipatória. Em Jesus, a verdade nasce da realidade concreta dos pobres e oprimidos e se opõe a toda forma de ideologia que encobre a injustiça. Sua verdade não serve ao poder, mas se realiza no amor que liberta e transforma a história. Palavras-cha...

Análises Sociológicas de desenhos animados - Histórias em Quadrinhos (HQs)

Este estudo sociológico está dividido em três partes, a primeira analisa três desenhos animados HQS:  X-Men , Turma da Mônica   e Attack on Titan    e a segunda parte analisa o mundo de Gumball.  A terceira parte outros desenhos com análise sociológica crítica por temáticas: poder, ideologia, classe social, gênero, racismo, patriarcado e colonialidade. Analisando desenhos animados HQS machismo,  nacionalismo, ódio,  manipulação da História segregação social,  desumanização,  pautas progressista e valores da sociedade brasileira. Como surgiu interessante pelos desenhos animados? No sábado Miguelito me apresentou o debate sobre machismo no mundo de Gumball. O    canal Hamlet ARL está abaixo o vídeo da anális: sobre o roteiro de ideias como:  "meninos não choram" são debatidas no canal Hamlet ARL.  A construção da identidade é construida a partir dessas experiências desde criança que precisa ser Durão no caso dos meninos. Id...

A Sociedade do Desempenho, "capital do bem" Privatizações Normalização e Moral que Aliena os brasileiros ?

Está análise crítica a sociedade brasileira contemporânea a partir da articulação entre a sociedade do desempenho, a alienação política e a normalização da privatização dos direitos sociais. Discute-se como a população passa a aceitar voluntariamente o pagamento permanente por saúde, educação, moradia e serviços urbanos, enquanto o capital financeiro e imobiliário concentra poder e renda. Abordam-se a negação simbólica do SUS, a mercantilização da educação pública, a verticalização autoritária das cidades, a ideologia do enriquecimento individual e a servidão simbólica. Ao final, apresentam-se as cooperativas escolares como alternativa democrática à privatização. La sociedad del rendimiento, el “capital del bien”, las privatizaciones, la normalización y la moral que aliena a los brasileños Este análisis crítico aborda la sociedad brasileña contemporánea a partir de la articulación entre la sociedad del rendimiento, la alienación política y la normalización de la privatización de los de...