O pensamento de Nildo Viana articula as dimensões psíquicas e sociais da vida sob o capitalismo, propondo uma leitura freudo-marxista do sujeito contemporâneo. Em Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital (2017), o autor analisa como o princípio competitivo, o consumismo e a burocratização moldam a mentalidade burguesa e a subjetividade alienada. A reprodução do capital opera também no inconsciente, instaurando um princípio repressivo de realidade que naturaliza a obediência, a competição e o desejo de status. Viana, dialogando com Freud, Fromm, Gorz e Gramsci, demonstra que o comportamento humano não decorre de uma natureza fixa, mas de uma construção histórica permeada por ideologia e repressão. A alienação psíquica, assim como a econômica, é produto das relações sociais de dominação. O autor defende a necessidade de resgatar a essência humana – o trabalho criador e cooperativo – e libertar as necessidades autênticas, superando as formas de prazer e desejo impostas pela sociedade de consumo.
Palavras chaves: Freudo-marxismo; alienação psíquica; mentalidade burguesa; princípio repressivo de realidade; consumismo
Introdução
O pensamento de Nildo Viana ocupa um lugar singular no cenário das ciências sociais e da filosofia crítica brasileira contemporânea. Sociólogo, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Viana tem desenvolvido, desde a década de 1990, uma obra vasta voltada à crítica da sociedade capitalista, à teoria marxista da reprodução social e à reformulação das relações entre psicanálise e materialismo histórico.
Autor de livros como A Reprodução Social (2007), Marxismo e Psicologia (2017) e Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital (2017), ele propõe uma leitura dialética e crítica da subjetividade, reinterpretando conceitos de Marx, Freud, Fromm e Jung sob a ótica do freudo-marxismo histórico.
A trajetória de Nildo Viana é marcada pela busca de uma síntese entre as estruturas econômicas e a formação psíquica dos indivíduos. Em suas pesquisas, o autor defende que a dominação capitalista não se limita ao plano material da exploração do trabalho, mas penetra profundamente nas formas de pensamento, sentimento e desejo.
Em Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital, obra que se insere na continuidade de suas investigações sobre o marxismo crítico, Viana analisa como o inconsciente é produzido social e historicamente — sendo um elemento essencial da reprodução do capital.
A proposta do autor rompe com tanto o economicismo quanto o psicologismo tradicionais. Para Viana, o universo psíquico é uma dimensão histórica da totalidade social, atravessada pelas contradições entre repressão e liberdade, prazer e trabalho, alienação e criação.
Ao criticar o instinto de morte e o Complexo de Édipo como categorias universais, o autor denuncia as “ficções freudianas” que desistoricizam o psiquismo, e propõe, em seu lugar, a noção de inconsciente coletivo histórico, constituído pelas práticas sociais e pelas lutas de classe.
Sua abordagem insere-se, portanto, em uma tradição crítica que une Marx, Freud e Fromm, mas que busca ir além deles, formulando uma psicologia social marxista capaz de compreender a alienação psíquica como parte integrante da alienação social.
Em diálogo com autores como Erich Fromm, André Gorz, La Boétie e Gramsci, Viana reflete sobre como a competição, o consumismo e a burocratização estruturam a mentalidade burguesa e perpetuam o sofrimento humano sob o capitalismo.
Ao propor a articulação entre inconsciente e estrutura social, Viana amplia o horizonte da crítica marxista, revelando que a transformação da sociedade depende também da emancipação do desejo e da consciência.
A libertação humana, em sua visão, só se concretiza quando o ser humano supera a repressão imposta pelo capital e reconstroi sua essência criadora. Assim, sua obra representa uma síntese freudo-marxista original, que recoloca o tema do inconsciente no centro da teoria da reprodução social e da luta pela emancipação.
O Comportamento Competitivo e a Formação da Mentalidade Burguesa: uma Leitura
A sociedade capitalista contemporânea estrutura-se sobre uma lógica de competição e consumo que molda o psiquismo humano e redefine a essência da vida social. O indivíduo, compelido pelo desejo de ultrapassar o outro, encontra-se imerso em uma corrida incessante pela distinção e pelo status.
Como afirma Viana (2017, p. 23), “o indivíduo se sentia compelido pelo desejo de ultrapassar o seu competidor (...) Nessa luta pelo sucesso ruíram as regras sociais e morais de solidariedade humanas; a importância da vida consistia em supor ser o primeiro em uma corrida competitiva”.
Este princípio competitivo, longe de ser apenas econômico, adquire dimensão psíquica e moral, formando uma mentalidade burguesa que naturaliza a desigualdade e a alienação.
O consumismo desenfreado e a compulsão pelo ter, incentivados pela ideologia do mercado, instauram um “verdadeiro modo de vida”, sustentado pela sociabilidade capitalista (VIANA, 2017, p. 24).
Essa forma de vida esvazia a solidariedade e substitui os vínculos humanos por relações mediadas pela mercadoria e pelo prestígio. O desencantamento do mundo, acompanhado da burocratização das relações sociais, manifesta-se como uma das patologias da modernidade (VIANA, 2017, p. 24).
Robert Michels (apud VIANA, 2017, p. 27) já havia advertido sobre as consequências da burocratização: o surgimento do oportunismo político, do revisionismo e do eleitoralismo, sintomas da perda de autenticidade das práticas sociais.
Gramsci, por sua vez, ao refletir sobre os “institutos democráticos” e o reformismo civil, mostra que as estruturas formais da democracia liberal servem à reprodução da hegemonia burguesa (VIANA, 2017, p. 28).
A lógica capitalista fábrica “necessidades artificiais”, como já advertiram Gorz (1968) e Fromm (1986). Tais necessidades são sustentadas pela produção de bens descartáveis e pela obsolescência planejada, componentes do que Viana (2008) denomina acumulação integral, característica do neoliberalismo contemporâneo. O resultado é uma forma de alienação psíquica na qual o sujeito confunde o “ter” com o “ser”, e o prazer com o consumo.
Viana (VIANA, 2017, p. 29) propõe compreender essa realidade como um universo psíquico, estruturado sob o princípio repressivo da realidade, que internaliza os valores da sociabilidade capitalista.
Fromm (apud VIANA, p. 30) observa que o comportamento humano “não é questão de decisão consciente sobre a obediência ou não ao padrão social”, mas um desejo inconsciente de agir conforme as exigências da cultura — encontrando satisfação na própria submissão.
A família, segundo Fromm, é o núcleo de reprodução dessa mentalidade: os pais transmitem aos filhos o caráter social desejável, moldado por valores como riqueza, poder e competição (VIANA, 2017, p. 30). Assim, a educação familiar funciona como aparelho psíquico de reprodução da ideologia burguesa.
O princípio repressivo da realidade, oriundo de Freud, transforma-se em um instrumento de controle social. Desde a infância, os indivíduos são condicionados à obediência, como observa La Boétie (1987, p. 25): “nascem servos e são criados como tais”.
O sujeito aprende que, para não ser considerado “preguiçoso” ou “fracassado”, deve competir incessantemente — internalizando o sofrimento como virtude (VIANA, 2017, p. 32-33).
Viana articula essa dinâmica com o conceito de instinto de morte, reformulado por Fromm como necrofilia — o amor à morte e à destruição —, expressão da pulsão de dominação e autodestruição do capitalismo (VIANA, 2017, p. 34). A criatividade e as necessidades autênticas são substituídas por necessidades inautênticas e por uma consciência reificada.
Com apoio em Freud, Jung e Philippe Ariès, Viana (VIANA, 2017, p. 36) mostra que o inconsciente individual e coletivo é moldado historicamente, constituindo uma “história das mentalidades” em que a repressão e o prazer se entrelaçam. A utopia concreta e o realismo crítico (p. 37-38) tornam-se, então, possibilidades de superação dessa alienação, revelando a distância entre aparência e essência.
A questão central emerge: “O homem é livre ou prisioneiro de seus desejos inconscientes?” (VIANA, 2017, p. 60). Para o autor, a liberdade não está na negação das necessidades, mas em sua humanização.
O trabalho, como atividade criadora, é o meio pelo qual o ser humano satisfaz suas necessidades de forma consciente e social (VIANA, 2017, p. 63). Não existe antagonismo entre necessidade e liberdade, pois o desejo é fruto de necessidades conscientes e inconscientes mediadas pela história.
Assim, o comportamento competitivo — que busca status e distinção — expressa uma moral capitalista. O ego, submetido ao princípio repressivo da realidade, reprime o id e transforma o prazer em produtividade.
O resultado é a manutenção de uma mentalidade que perpetua a alienação e o sofrimento, mas que também contém, em seu interior, a potência da emancipação.
O pensamento de Nildo Viana, em diálogo com Freud, Fromm e Marx, revela que o psiquismo humano é produto da história e da estrutura social. A competição, a repressão e o consumo não são traços naturais do homem, mas formas específicas da sociabilidade burguesa.
A libertação das necessidades inautênticas e a construção de uma nova mentalidade exigem a superação das bases materiais e simbólicas do capital. A verdadeira emancipação humana implica a unificação entre consciência, prazer e liberdade, transformando o inconsciente coletivo em espaço de criação e solidariedade. A psicanálise crítica de Viana, portanto, propõe não apenas compreender o sujeito alienado, mas reconstruir o humano em sua totalidade histórica e psíquica.
A partir dessa leitura, torna-se evidente que o comportamento competitivo, longe de ser um traço natural da condição humana, constitui-se como expressão psíquica da moral capitalista.
O que se apresenta como simples busca individual por sucesso é, na verdade, a interiorização de um princípio histórico que submete o prazer, o desejo e a solidariedade à lógica da produtividade e do lucro.
Essa dinâmica revela que a alienação não se restringe ao campo econômico, mas penetra profundamente na estrutura do inconsciente, convertendo o indivíduo em agente da própria dominação.
É nesse ponto que a reflexão de Nildo Viana em Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital se torna fundamental, ao desvendar como o capital molda as subjetividades e transforma o psiquismo humano em instrumento de sua reprodução moral e social.
Universo Psíquico e Reprodução do Capital
A moral capitalista constitui um dos eixos centrais da crítica de Nildo Viana à sociedade contemporânea. Em Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital (2017), o autor demonstra que o capitalismo não apenas organiza a produção material, mas também forma subjetividades, internaliza valores e molda a consciência humana segundo a lógica da competição, da produtividade e do consumo.
Essa moralidade, que se apresenta como natural e universal, é na verdade produto histórico da sociabilidade burguesa e do princípio repressivo da realidade, responsável por converter a alienação econômica em alienação psíquica.
Ao substituir o prazer pela utilidade e a solidariedade pela concorrência, a moral capitalista transforma o indivíduo em instrumento da própria lógica de acumulação. Como resultado, o sujeito passa a medir seu valor por sua capacidade de vencer, possuir e se destacar, enquanto interioriza sentimentos de culpa, fracasso e insuficiência.
Viana argumenta que essa moral não se sustenta apenas na ideologia, mas se enraíza no inconsciente coletivo histórico, produzido pelas relações sociais de dominação. Assim, o comportamento competitivo e a compulsão pelo “ter” são expressões psíquicas de uma estrutura econômica e simbólica que reprime a natureza criadora do ser humano.
A crítica à moral capitalista, portanto, exige compreender como o universo psíquico é capturado pelo capital e transformado em campo de reprodução da desigualdade e da servidão mental.
Viana propõe que o universo psíquico é uma dimensão fundamental da reprodução das relações sociais capitalistas. O inconsciente, longe de ser uma estrutura natural, é formado historicamente sob o domínio das relações de produção e alienação.
Crítica às ficções freudianas
O autor critica o instinto de morte e o Complexo de Édipo como categorias universalizantes e a-históricas. Em vez de aceitar essas construções como dados naturais, ele as entende como produções ideológicas compatíveis com a sociedade burguesa.
Inconsciente coletivo histórico
Diferente de Freud (individual) e Jung (transcendente), Viana propõe um inconsciente coletivo histórico, moldado pela prática social e pela luta de classes. Esse inconsciente contém potencialidades humanas reprimidas pelo capital e que podem ser liberadas na emancipação social.
Alienação psíquica
O sujeito é alienado não apenas economicamente, mas também em sua vida interior. O capitalismo produz personalidades reprimidas, fragmentadas e adaptadas à lógica da mercadoria, naturalizando a servidão psíquica.
Superação dialética
A libertação psíquica só é possível por meio da transformação social revolucionária. A emancipação do inconsciente está ligada à emancipação da humanidade, pois o psiquismo é parte da totalidade histórica.
Síntese teórica
Nildo Viana realiza uma síntese entre Marx e Freud, superando tanto o economicismo marxista quanto o biologismo freudiano. Sua teoria é uma proposta de “psicologia social crítica”, onde o inconsciente é compreendido como um produto histórico da reprodução do capital e, ao mesmo tempo, um campo de resistência e criação humana.
A moral capitalista, ao naturalizar a competição e a busca incessante por status, perpetua um modelo de subjetividade alienada e fragmentada. Sob o disfarce da liberdade individual, o sujeito é conduzido à obediência inconsciente às exigências da sociedade mercantil.
Em Universo Psíquico, Nildo Viana revela que essa moral repressiva opera não apenas no plano ético, mas no próprio inconsciente, constituindo um “caráter social” adaptado à ordem burguesa.
A superação dessa moralidade implica uma revolução psíquica e social, na qual o prazer, a cooperação e a criação substituam a lógica do lucro e da competição.
Viana propõe, assim, uma ética emancipatória, fundada na humanização das necessidades e na libertação do inconsciente das amarras do capital. A verdadeira moral humana só pode emergir de uma sociedade liberta da alienação — onde o trabalho, o desejo e a consciência se reconciliem como expressões da liberdade e da vida criadora.
Dessa forma, sua crítica à moral capitalista não se restringe à denúncia da repressão, mas aponta para a possibilidade de um novo horizonte de subjetividade e solidariedade humana.
Conclusão
A obra de Nildo Viana revela que o inconsciente é um campo histórico e socialmente produzido, e não uma estrutura natural e imutável. A competição, o individualismo e o consumismo representam mecanismos de dominação que aprisionam o sujeito em uma moral capitalista.
A libertação humana exige a reconstrução da consciência e das relações sociais, integrando necessidade, prazer e liberdade em um novo modo de sociabilidade.
A leitura freudo-marxista de Viana oferece, portanto, uma crítica radical da subjetividade moderna é uma utopia concreta de emancipação psíquica e social.
Bibliografia
BOÉTIE, Étienne de. Discurso da Servidão Voluntária. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
FROMM, Erich. Ter ou Ser? Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GORZ, André. Crítica da Divisão do Trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1968.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
JUNG, Carl G. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1981.
VIANA, Nildo. Universo Psíquico: Ensaios e Reprodução do Capital. Goiânia: Edições Nova Cultura, 2017.
VIANA, Nildo. Acumulação Integral e Crise do Capitalismo. Goiânia: Edições Nova Cultura, 2008.

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