O COMPORTAMENTO LEGISLATIVO DO MBL EM RELAÇÃO AO BOLSONARISMO E AO CENTRÃO: discurso político, prática parlamentar e convergência programática
A presente análise sobre o comportamento político e legislativo do Movimento Brasil Livre (MBL) em relação ao bolsonarismo e ao chamado Centrão no Congresso Nacional. Embora o MBL se apresente discursivamente como oposição tanto ao Partido dos Trabalhadores quanto ao bolsonarismo, observa-se, na prática parlamentar, significativa convergência com a agenda econômica e social sustentada pelo bolsonarismo e operacionalizada pelo Centrão. A pesquisa utiliza análise qualitativa de discursos públicos, posicionamentos oficiais e padrões de votação parlamentar, evidenciando a dissociação entre retórica política e prática legislativa. Conclui-se que o MBL rompeu com Bolsonaro no plano simbólico-institucional, mas manteve alinhamento estrutural com o projeto neoliberal que caracteriza o bolsonarismo no Congresso.
Palavras-chave: MBL; Bolsonarismo; Centrão; comportamento legislativo; neoliberalismo.
1 Introdução
O Movimento Brasil Livre (MBL) surgiu no cenário político brasileiro como um ator relevante nas mobilizações de rua a partir de 2014, apresentando-se como um movimento liberal, antipetista e defensor da moralidade pública.
Com a ascensão do bolsonarismo ao poder em 2018, o MBL inicialmente integrou o mesmo campo político, rompendo posteriormente em razão de disputas internas, estratégias eleitorais e divergências institucionais.
Contudo, tal ruptura discursiva suscita questionamentos quanto à efetiva independência programática do movimento no âmbito do Legislativo. Este artigo busca analisar se o afastamento do MBL em relação ao bolsonarismo se manifesta de forma consistente nas votações parlamentares ou se se limita ao plano retórico.
A atuação do Movimento Brasil Livre (MBL) no ambiente digital tem sido associada, por diferentes investigações jornalísticas e estudos acadêmicos, à disseminação e amplificação de conteúdos classificados como desinformação política.
Em especial, destacam-se episódios ocorridos no período pré-eleitoral de 2018, quando plataformas digitais removeram redes de páginas e perfis ligados ao movimento por violação de regras de autenticidade e ocultação de autoria.
Tais redes operavam por meio de sites e páginas com aparência jornalística, difundindo narrativas falsas ou enganosas contra adversários políticos, especialmente lideranças do campo progressista, como Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo após decisões do Supremo Tribunal Federal que anularam as condenações de Lula, o MBL manteve a reprodução de narrativas que o apresentavam como “condenado” ou “corrupto”, ignorando o estado jurídico real dos processos.
Ademais, reportagens indicam a participação do movimento na circulação de boatos envolvendo o assassinato da vereadora Marielle Franco, associando-a indevidamente ao crime organizado, sem respaldo factual.
Esses episódios evidenciam uma contradição central entre o discurso do MBL de defesa da legalidade, da racionalidade e da ética pública e sua prática comunicacional, marcada pelo uso estratégico da desinformação como instrumento de disputa política e mobilização ideológica.
2 Metodologia
A pesquisa adota abordagem qualitativa, com análise documental de discursos públicos, entrevistas, manifestações em redes sociais e votações nominais no Congresso Nacional envolvendo parlamentares associados ao MBL. Utiliza-se também revisão bibliográfica sobre bolsonarismo, neoliberalismo e funcionamento do Centrão, além de dados secundários de observatórios legislativos e estudos sobre comportamento parlamentar.
3 O surgimento do MBL e sua inserção institucional
O MBL não se constitui como partido político, mas como movimento que atua por meio da filiação de seus quadros a partidos diversos, majoritariamente situados no campo liberal-conservador e integrantes do Centrão, como União Brasil e, anteriormente, PSL e Patriota.
Essa estratégia revela uma adaptação pragmática ao sistema político brasileiro, no qual a governabilidade e a influência legislativa se dão por meio de grandes blocos partidários sem forte coerência ideológica (AMARAL, 2016).
4 Bolsonarismo no Congresso: além do personalismo
Embora frequentemente associado a pautas morais e retórica autoritária, o bolsonarismo no Congresso se estrutura fundamentalmente em torno de uma agenda econômica neoliberal: reformas estruturais, privatizações, austeridade fiscal e flexibilização de direitos trabalhistas (SINGER, 2018). Essa agenda é viabilizada politicamente por meio de alianças com o Centrão, que atua como mediador pragmático do poder legislativo (NUNES, 2022).
5 Convergência legislativa entre MBL e bolsonarismo
A análise das votações revela que parlamentares vinculados ao MBL frequentemente votaram de forma alinhada ao bolsonarismo em matérias centrais, tais como:
Reforma da Previdência;
Reforma Trabalhista e flexibilização de direitos;
Privatizações e desestatizações;
Políticas de austeridade fiscal e teto de gastos;
Redução do papel do Estado em políticas sociais.
Essa convergência indica que o rompimento do MBL com Bolsonaro não se deu em relação ao núcleo programático do bolsonarismo, mas sobretudo quanto à condução política, à retórica antidemocrática e ao conflito aberto com instituições como o Supremo Tribunal Federal.
6 Divergências institucionais e limites da oposição
As divergências do MBL em relação ao bolsonarismo concentram-se em aspectos institucionais, como a rejeição a discursos explicitamente golpistas, ataques diretos ao Judiciário e à imprensa e a defesa formal do Estado Democrático de Direito.
Todavia, tais divergências não se traduzem em oposição sistemática ao projeto econômico e social que sustentou o governo Bolsonaro, revelando uma oposição parcial e seletiva.
7 Relação com o Centrão e funcionalidade política
A inserção do MBL em partidos do Centrão demonstra que sua atuação parlamentar está condicionada à lógica do presidencialismo de coalizão. Nesse sentido, o movimento opera como uma força funcional ao bloco dominante do Congresso, contribuindo para a legitimação técnica e moral de reformas impopulares sob o discurso de modernização e eficiência econômica.
8 Casos de desinformação associados ao MBL: evidências documentadas e análise crítica
A emergência da desinformação (fake news) nas plataformas digitais tem representado um desafio significativo à qualidade do debate público nas democracias contemporâneas.
No Brasil, diversas reportagens e investigações acadêmicas indicam episódios envolvendo o Movimento Brasil Livre (MBL) em redes de produção e amplificação de conteúdos considerados enganosos ou falsos durante seu engajamento político, sobretudo no período das eleições de 2018.
8.1. Rede de desinformação removida pelo Facebook em 2018
Em julho de 2018, a plataforma Facebook removeu 196 páginas e 87 contas no Brasil identificadas como parte de uma "rede coordenada" de desinformação, cujo objetivo era “esconder a natureza e a origem de seu conteúdo” para gerar divisão e espalhar conteúdos enganosos.
Fontes ouvidas pela agência Reuters relataram que essa rede era operada por membros do MBL e continha páginas com nomes como Jornalivre e O Diário Nacional, amplamente usadas para disseminar narrativas políticas sensacionalistas sob aparência de múltiplas origens independentes.
O próprio Facebook declarou que a remoção ocorreu após uma investigação rigorosa, porque os perfis violavam suas políticas de autenticidade e ocultavam intencionalmente sua verdadeira origem e controle. Embora o MBL tenha criticado a ação classificando-a como “censura”, as evidências indicam que a política de remoção foi desencadeada por violações às regras de autenticidade da plataforma.
8.2. Testemunhos de ex-colaboradores sobre produção de conteúdos enganosos
Relatos publicados por ex-colaboradores do blog Jornalivre, que era frequentemente amplificado pelas redes sociais associadas ao MBL, sugerem que havia orientação para a publicação de conteúdo político sem verificação factual rígida.
Segundo Roger Roberto Dias André, editor-chefe do Jornalivre, membros vinculados ao MBL pediam explicitamente a publicação de materiais “úteis” para atacar adversários políticos sem necessidade de comprovação, o que configura práticas que podem ser categorizadas como desinformação política.
Esses relatos apontam para práticas de ataque e estímulo à produção e disseminação de conteúdo sem verificação rigorosa de fatos, indicando que a desinformação não seria apenas um efeito colateral, mas uma parte funcional da estratégia comunicacional em certos momentos.
3. Impulsionamento de boatos sobre a vereadora Marielle Franco
Pesquisas e reportagens indicam que o MBL ajudou a impulsionar narrativas falsas em torno do assassinato da vereadora Marielle Franco em março de 2018.
Uma investigação do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo mostrou que o site Ceticismo Político, replicado por canais associados ao MBL, compartilhou conteúdo que vinculava a vereadora injustamente ao crime organizado, sem evidências comprobatórias, alcançando grande circulação nas redes sociais.
Embora o MBL tenha negado responsabilidade direta pela administração do site Ceticismo Político, interações frequentes entre o movimento e o autor do blog nas redes sociais reforçam a proximidade funcional, mesmo que formalmente contestada.
Considerações finais
Conclui-se que o MBL construiu uma identidade discursiva de oposição ao bolsonarismo que não encontra correspondência integral em sua prática legislativa.
O alinhamento sistemático a pautas econômicas neoliberais e a atuação dentro de partidos do Centrão indicam que o movimento compartilha o mesmo projeto estrutural que caracterizou o bolsonarismo no Congresso Nacional.
Assim, a divergência entre MBL e bolsonarismo deve ser compreendida menos como ruptura ideológica e mais como reposicionamento estratégico no campo político brasileiro.
Em política, não é o discurso que conta, é o voto.
O MBL diz que rompeu com Bolsonaro, mas no Congresso vota igual nas pautas centrais: reforma da Previdência, privatizações, corte de políticas sociais e redução de direitos trabalhistas.
A diferença está no tom, não no projeto.
Bolsonaro grita e ataca instituições; o MBL se apresenta como “técnico” e “responsável”.
O discurso muda, o projeto permanece o mesmo.
Além disso, seus parlamentares atuam em partidos do Centrão, o mesmo bloco que sustentou politicamente o bolsonarismo.
Conclusão final: Quem vota igual, governa igual.
Romper no discurso não apaga o voto. “Pelos frutos se conhece a árvore.” (Mateus 7:16)
Leia também
Referências
AMARAL, Oswaldo E. do. Partidos, ideologia e coalizões no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2016.
BOITO JR., Armando. Reforma e crise política no Brasil. Campinas: Unicamp, 2018.
NUNES, Rodrigo. Do lulismo ao bolsonarismo: crise, política e autoritarismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2022.
SINGER, André. O lulismo em crise. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
TATAGIBA, Luciana; GALVÃO, Andréia. Movimentos sociais e direita no Brasil contemporâneo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 34, n. 100, 2019.
VASCONCELOS, Fábio. Neoliberalismo e reforma do Estado no Brasil. Revista de Economia Política, v. 40, n. 2, 2020.
DEUTSCHE WELLE. Facebook desativa “rede de desinformação” no Brasil. UOL Notícias, 25 jul. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2018/07/25/facebook-desativa-rede-de-desinforma%C3%A7%C3%A3o-no-brasil.htm. Acesso em: [2025].
FACEBOOK derruba redes de desinformação associadas ao MBL. UOL Notícias, 25 jul. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/reuters/2018/07/25/facebook-retira-do-ar-rede-de-fake-news-ligada-ao-mbl-antes-dizem-fontes.htm. Acesso em: [2025].
INFO MONEY. Facebook retira do ar páginas ligadas ao MBL por “fake news”; Movimento fala em censura. 25 jul. 2018. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/politica/facebook-retira-do-ar-paginas-ligadas-ao-mbl-por-fake-news-movimento-fala-em-censura/. Acesso em: [2025].
UOL NOTÍCIAS. Ex-colaboradores afirmam que MBL orientava ataques na internet; grupo nega. 11 nov. 2019. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2019/11/11/mbl-fake-news-difamacao-ex-colaboradores-luciano-avan-roger-scar.htm. Acesso em: [2025].
MTST. Investigação mostra que MBL impulsionou fake news contra Marielle. 26 mar. 2018. Disponível em: https://mtst.org/noticias/investigacao-mostra-que-mbl-impulsionou-fake-news-contra-marielle/. Acesso em: [2025].
Anexo

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