A presença negra na formação inicial de Jaraguá do Sul (SC): trabalho, invisibilização e memória histórica na colonização do Vale do Itapocu
Está análise sobre a participação da população negra na fase inicial da colonização de Jaraguá do Sul (SC), entre 1876 e o final do século XIX, com foco nas pessoas que trabalharam vinculados ao empreendimento de Emílio Carlos Jourdan. Discute-se a ausência de registros sistemáticos de sobrenomes, o processo de invisibilização histórica e a construção de narrativas coloniais centradas na imigração europeia. A pesquisa baseia-se em fontes secundárias regionais, destacando a presença de trabalho negros no Engenho Jaraguá e suas condições sociais no processo de formação territorial.
Por volta de 1876
1. Introdução
A colonização do Vale do Itapocu, onde se localiza Jaraguá do Sul, foi conduzida a partir de 1876 por Emílio Carlos Jourdan, responsável pela implantação de estruturas produtivas como engenho, serraria e lavoura. Nesse processo, foram utilizados cerca de 60 pessoas como mão de obra de trabalho, incluindo homens negros e mestiços, fundamentais na abertura da região.
Contudo, a historiografia local tradicional privilegia a imigração europeia, invisibilizando a participação da população negra.
2. A presença negra no processo colonizador
Fontes históricas regionais indicam que aproximadamente 60 pessoas supostamente como trabalhadores foram contratados por Jourdan, sendo parte deles negros provenientes de diferentes regiões do Brasil.
Uma fonte documental local registra:
“vieram com o coronel Jourdan 54 negros como mão de obra de trabalho coloniais ” � Fujama
Além disso, estudos apontam que cerca de 35 desses trabalhadores eram negros, atuando em atividades como derrubada de mata, agricultura e construção de infraestrutura inicial �. Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul
Esses trabalhadores foram essenciais para o funcionamento do Engenho Jaraguá.
Durante a formação inicial de Jaraguá do Sul (SC), trabalhadores negros tiveram participação fundamental na abertura de estradas, derrubada da mata e construção dos primeiros engenhos. Apesar disso, suas histórias foram pouco registradas nos documentos oficiais da colonização. Muitos desses homens e mulheres foram posteriormente marginalizados, sem acesso à terra e excluídos da narrativa histórica dominante, que privilegiou a imigração europeia. Resgatar essa memória é reconhecer a contribuição invisibilizada da população negra na construção do território do Vale do Itapocu.”
3. Sobrenomes e registro histórico
3.1. Ausência de sistematização de sobrenomes
Não há lista completa dos “60 primeiros negros” com sobrenomes registrados. Isso ocorre por três fatores:
Registros coloniais incompletos
Uso variável de nomes (batismo, apelidos ou nomes únicos)
Baixa formalização civil de trabalhadores pobres no século XIX
3.2. Nomes documentados em fontes locais
Apesar disso, há registro parcial de alguns nomes associados ao grupo de mão de obra de trabalho negros do período, como:
Francisco de Paula
Justino Ventura
João Ventura
Antonio Gomes
José Alagoano
Pedro Carioca
Manuel Gaúcho
José Benício
Domingos Rosa
Raimundo dos Reis
Importante: esses nomes não representam uma lista completa de sobrenomes familiares estruturados, mas sim registros pontuais de indivíduos.
4. Abandono e exclusão social
Após o abandono do empreendimento por Jourdan (1888), muitas pessoas:
não receberam terras
foram deslocados para áreas periféricas
formaram núcleos como o “Morro da África”
tiveram sua presença diluída na narrativa oficial da colonização
Esse processo contribuiu para a marginalização histórica da população negra na região.
4.1 Abandono do empreendimento por Jourdan (1888) e o contexto de transição do trabalho escravizado
O abandono do empreendimento conduzido por Jourdan, em 1888, deve ser interpretado dentro de um contexto histórico marcado pela crise do sistema escravista e pela reconfiguração das relações de trabalho no Brasil.
O ano de 1888 constitui um marco decisivo, pois coincide com a Abolição da Escravatura, formalizada pela Lei Áurea (Lei n.º 3.353, de 13 de maio de 1888), evento que não apenas encerra juridicamente o regime escravocrata, mas também produz impactos diretos sobre os modelos econômicos baseados na exploração da mão de obra cativa.
No caso de empreendimentos coloniais e de exploração territorial associados a iniciativas privadas ou semipúblicas, como aquelas atribuídas a Jourdan, a desestruturação da ordem escravista implicou dificuldades operacionais significativas.
A transição abrupta para o trabalho livre, sem políticas efetivas de integração dos libertos ou estruturação de um mercado de trabalho assalariado consolidado, gerou instabilidade produtiva, aumento de custos e, em muitos casos, inviabilização de projetos econômicos baseados em regimes de trabalho coercitivos ou semi-coercitivos.
Nesse sentido, o abandono do empreendimento pode ser compreendido não apenas como decisão individual ou empresarial, mas como expressão de uma crise estrutural mais ampla do sistema de produção agroexportador e colonizador do período.
A literatura historiográfica aponta que a passagem do trabalho escravizado ao trabalho livre no Brasil foi marcada por continuidades de exclusão social, precarização do trabalho e ausência de políticas de reparação aos libertos, o que aprofundou desigualdades regionais e dificultou a consolidação de projetos de colonização sustentados exclusivamente por mão de obra assalariada (SCHWARCZ; STARLING, 2015).
Além disso, a literatura crítica sobre o pós-abolição evidencia que muitos empreendimentos econômicos do final do século XIX não estavam estruturalmente preparados para a substituição do trabalho escravizado, resultando em desorganização produtiva e abandono de iniciativas empresariais em regiões periféricas do processo de modernização econômica brasileira (GORENDER, 2016). Assim, o caso de Jourdan pode ser analisado como parte desse processo mais amplo de reestruturação do capitalismo periférico no Brasil oitocentista.
Dessa forma, o abandono do empreendimento em 1888 não pode ser interpretado isoladamente, mas como resultado de uma inflexão histórica que articula abolição, crise do regime de trabalho e reconfiguração das dinâmicas de ocupação territorial no Sul do Brasil.
5. Discussão
A ausência de sobrenomes fixos e registros detalhados revela uma estrutura social desigual, típica do pós-escravidão no Brasil. A colonização sulista reforçou o protagonismo europeu, enquanto trabalhadores negros foram tratados como força de trabalho transitória.
6. Conclusão
Não é possível recuperar uma lista completa de “sobrenomes dos primeiros 60 negros” de Jaraguá do Sul, pois tais registros não foram sistematicamente produzidos. Entretanto, fontes locais demonstram sua presença fundamental na formação inicial do território e evidenciam um processo histórico de invisibilização.
Referências
BRASIL. Lei n.º 3.353, de 13 de maio de 1888 (Lei Áurea). Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 1888.
COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: Unesp, 2010.
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Expressão Popular, 2016.
JAGNOW, Egon Lotário; ALVES, Beatriz de Lima. Memórias do Povoado Morro da África. Jaraguá do Sul: Arquivo Histórico Municipal, s.d.
JARAGUÁ DO SUL. Câmara de Vereadores. Semana da Consciência Negra e a história dos negros em Jaraguá do Sul. 2024. Disponível em: https://www.jaraguadosul.sc.leg.br�. Acesso em: 27 mar. 2026.
JARAGUÁ DO SUL. Prefeitura Municipal. Síntese histórica do município. 2025. Disponível em: https://www.jaraguadosul.sc.gov.br�. Acesso em: 27 mar. 2026.
MATTOS, Hebe Maria. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
SCHORNER, Ancelmo. A pedra, o migrante e o morro: ocupação e memória social em Jaraguá do Sul. Florianópolis: UFSC, 2000.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.



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