O BEM VIVER COMO PROJETO CIVILIZATÓRIO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO: ENTRE DISPUTAS E ALTERNATIVAS AO DESENVOLVIMENTO
A presente análise sobre o conceito de Bem Viver das civilizações originários stematizado por Alberto Acosta, enquanto horizonte ético, político e civilizatório em disputa no Brasil contemporâneo. A partir da segunda edição da obra O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, discute-se a atualização crítica do conceito diante das crises contemporâneas — sanitária, ambiental, social e econômica — e sua ressignificação em contextos latino-americanos, especialmente no Brasil. O estudo enfatiza o protagonismo de movimentos sociais, com destaque para a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, na ampliação do conceito para além de suas raízes indígenas andino-amazônicas. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental. Conclui-se que o Bem Viver se configura como uma crítica radical ao paradigma desenvolvimentista e uma alternativa baseada na coletividade, justiça socioambiental e pluralidade epistêmica.
Palavras-chave: Bem Viver; desenvolvimento; movimentos sociais; justiça socioambiental; América Latina.
1. Introdução
A crise civilizatória contemporânea, marcada pela intensificação das desigualdades sociais, degradação ambiental e precarização da vida, tem impulsionado a busca por paradigmas alternativos ao modelo dominante de desenvolvimento. Nesse contexto, o conceito de Bem Viver emerge como uma proposta contra-hegemônica originada nos povos indígenas andino-amazônicos, sendo posteriormente reelaborado em diferentes contextos sociopolíticos.
A obra de Alberto Acosta, especialmente em sua segunda edição revisada e ampliada, reflete a natureza dinâmica e processual desse conceito, que se reinventa diante das transformações históricas recentes, como a pandemia de COVID-19 e a intensificação das crises climáticas.
No Brasil, o Bem Viver ganha centralidade a partir da articulação entre movimentos indígenas, quilombolas, feministas e ecossocialistas, constituindo-se como um campo de disputa política e epistemológica.
O conceito de Bem Viver, apresenta convergências com a Agenda 2030 ao priorizar justiça social, sustentabilidade e coletividade. Dialoga com ODS como erradicação da pobreza, redução das desigualdades e ação climática, ao propor uma relação equilibrada entre sociedade e natureza.
No entanto, tensiona a lógica do crescimento econômico presente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Assim, amplia criticamente os ODS ao incorporar perspectivas decoloniais e comunitárias. Dessa forma, o Bem Viver fortalece uma visão alternativa de desenvolvimento centrada na vida.
2. O Bem Viver como crítica ao desenvolvimento
O paradigma do desenvolvimento, consolidado ao longo do século XX, baseia-se na lógica de crescimento econômico ilimitado e exploração intensiva dos recursos naturais. Segundo Acosta, esse modelo revela sinais de esgotamento, tanto ecológico quanto social.
O Bem Viver propõe uma ruptura com essa racionalidade, defendendo:
A centralidade da vida em todas as suas formas;
A superação do antropocentrismo;
A valorização de economias solidárias e comunitárias;
A harmonia entre sociedade e natureza.
Essa perspectiva dialoga com críticas contemporâneas ao capitalismo global e à modernidade, aproximando-se de autores como Achille Mbembe e Ailton Krenak, que denunciam as estruturas de morte e destruição ambiental.
3. A ressignificação do Bem Viver no Brasil
No contexto brasileiro, o Bem Viver deixa de ser apenas um conceito teórico para se tornar prática política. Sua incorporação por movimentos sociais amplia seu alcance e redefine seus significados.
Um marco fundamental nesse processo foi a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que reuniu mais de cem mil participantes e consolidou o Bem Viver como eixo político antirracista e feminista.
Posteriormente, mobilizações como a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reforçaram essa agenda, articulando o conceito com temas como:
Justiça climática
Segurança pública
Economia do cuidado
Direito ao tempo e à vida
Nesse processo, o protagonismo de mulheres negras foi fundamental para “enegrecer” o conceito, incorporando valores como ancestralidade, coletividade e espiritualidade.
4. Bem Viver e justiça socioambiental
O Bem Viver também se destaca como proposta de reorganização das relações entre sociedade e natureza. A ideia dos Direitos da Natureza, presente na obra de Acosta, representa uma ruptura paradigmática ao reconhecer a natureza como sujeito de direitos.
Essa concepção desafia estruturas jurídicas tradicionais e aproxima-se de experiências constitucionais latino-americanas, como no Equador e na Bolívia.
Além disso, o conceito dialoga com:
A crítica ao extrativismo predatório;
A defesa dos territórios tradicionais;
A valorização de modos de vida não capitalistas.
5. O Bem Viver como projeto em disputa
Longe de ser um consenso, o Bem Viver constitui um campo de disputa política. Sua apropriação por diferentes atores pode tanto fortalecer seu caráter emancipatório quanto esvaziá-lo de conteúdo crítico.
No Brasil, ele tensiona:
O Estado moderno e suas estruturas centralizadoras;
O modelo econômico neoliberal;
As políticas públicas baseadas no crescimento econômico.
Ao mesmo tempo, abre possibilidades para a construção de um projeto de país baseado em justiça racial, ambiental e social.
6. O Bem Viver e a Agenda 2030: convergências críticas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)
A Organização das Nações Unidas, ao instituir a Agenda 2030, estabeleceu um plano global composto por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas, visando erradicar a pobreza, proteger o planeta e promover prosperidade para todos �. Esses objetivos estruturam-se a partir de três dimensões interdependentes — econômica, social e ambiental — e pressupõem uma abordagem integrada e sistêmica das crises contemporâneas �.
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Nesse contexto, o conceito de Bem Viver, conforme desenvolvido por Alberto Acosta, apresenta importantes convergências com a Agenda 2030, ao propor uma crítica radical ao modelo de desenvolvimento baseado no crescimento econômico ilimitado e ao defender formas de organização social centradas na vida, na coletividade e na sustentabilidade.
6.1 Convergências estruturais entre Bem Viver e os ODS
O Bem Viver dialoga diretamente com diversos ODS, destacando-se:
ODS 1 (Erradicação da pobreza) e ODS 10 (Redução das desigualdades):
O Bem Viver propõe superar desigualdades estruturais por meio de justiça social, redistribuição e reconhecimento de sujeitos historicamente marginalizados.
ODS 3 (Saúde e bem-estar):
A noção ampliada de saúde no Bem Viver inclui dimensões comunitárias, espirituais e ambientais, indo além da lógica biomédica.
ODS 5 (Igualdade de gênero):
A incorporação do Bem Viver por movimentos de mulheres negras no Brasil reforça sua dimensão feminista e antirracista.
ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis):
O conceito propõe cidades como espaços de convivência e emancipação, em oposição à lógica de mercantilização urbana.
ODS 12 (Consumo e produção responsáveis):
Critica o consumismo e valoriza economias solidárias, comunitárias e sustentáveis.
ODS 13 (Ação climática), ODS 14 (Vida na água) e ODS 15 (Vida terrestre):
O Bem Viver converge fortemente com a defesa dos direitos da natureza e a preservação dos ecossistemas.
Essas relações evidenciam que o Bem Viver não apenas dialoga com os ODS, mas antecipa muitos de seus princípios, especialmente no que se refere à interdependência entre sociedade e natureza.
6.2 Tensões e limites: crítica do Bem Viver à Agenda 2030
Apesar das convergências, o Bem Viver também apresenta críticas relevantes à Agenda 2030:
Persistência do paradigma desenvolvimentista:
O ODS 8 (crescimento econômico) ainda mantém a centralidade do crescimento, o que pode entrar em contradição com a crítica pós-desenvolvimentista do Bem Viver.
Risco de institucionalização e esvaziamento crítico:
A Agenda 2030, ao ser incorporada por Estados e mercados, pode reduzir conceitos transformadores a instrumentos técnicos de gestão.
Universalismo versus pluralidade epistemológica:
Enquanto os ODS possuem caráter universal, o Bem Viver valoriza epistemologias plurais, especialmente indígenas, afrodescendentes e comunitárias.
Assim, o Bem Viver tensiona a Agenda 2030 ao propor uma transformação mais profunda das estruturas de poder e das relações sociais.
6.3 O Bem Viver como radicalização dos ODS no Sul Global
No contexto latino-americano e brasileiro, o Bem Viver pode ser compreendido como uma radicalização crítica da Agenda 2030, ao:
Reposicionar a natureza como sujeito de direitos;
Valorizar saberes tradicionais e comunitários;
Incorporar dimensões decoloniais e antirracistas;
Questionar o modelo capitalista global.
Além disso, a interconexão entre os ODS — reconhecida pela própria ONU — reforça a afinidade com o pensamento do Bem Viver, que compreende a realidade como um sistema integrado, onde questões sociais, ambientais e econômicas são inseparáveis �.
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6.4 Implicações para políticas públicas e pesquisa científica
A articulação entre Bem Viver e Agenda 2030 abre caminhos para:
Formulação de políticas públicas baseadas em justiça socioambiental;
Desenvolvimento de indicadores alternativos ao PIB;
Fortalecimento de economias solidárias e territoriais;
Produção científica alinhada a epistemologias plurais.
Nesse sentido, o Bem Viver contribui para ampliar o alcance dos ODS, deslocando-os de uma perspectiva tecnocrática para uma abordagem ética, política e civilizatória.
Considerações finais
O Bem Viver se apresenta como uma alternativa concreta e necessária diante da crise civilizatória contemporânea. Sua força reside na articulação entre saberes tradicionais, práticas comunitárias e lutas sociais.
No Brasil, sua ressignificação por movimentos sociais — especialmente por mulheres negras — amplia seu potencial transformador, consolidando-o como um projeto político e civilizatório.
Entretanto, sua efetivação depende da capacidade de resistir às tentativas de cooptação e de fortalecer práticas concretas que materializem seus princípios.
Referências
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GONÇALVES, Juliana. O Bem Viver em narrativas de mulheres negras. Dissertação (Mestrado). Brasil, 2020.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução. São Paulo: Elefante, 2019.
CUSICANQUI, Silvia Rivera. Ch’ixinakax utxiwa. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010.
BRASIL. Carta das Mulheres Negras 2015. Brasília: Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras, 2015.
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