ÁGAPE E IGUALDADE DE GÊNERO: HERMENÊUTICA BÍBLICA CRÍTICA AO PATRIARCALISMO DA ULTRA DIREITA E AO DEBATE ANTISSUFRAGISTA NOS ESTADOS UNIDOS - AGAPE AND GENDER EQUALITY: CRITICAL BIBLICAL HERMENEUTICS AGAINST FAR-RIGHT PATRIARCHALISM AND THE ANTI-SUFFRAGIST DEBATE IN THE UNITED STATES
A presente análise sobre a relação entre o conceito bíblico-filosófico de ágape (ἀγάπη) e o princípio da igualdade de gênero entre homens e mulheres, a partir de uma hermenêutica bíblica crítica ao patriarcalismo teológico-político da ultra direita contemporânea. O estudo examina, com fundamentação exegética e epistemológica, o debate antissufragista nos Estados Unidos — no qual figuras vinculadas ao nacionalismo cristão advogam pelo fim do voto feminino e pela instituição do "voto domiciliar" exclusivamente masculino —, confrontando esse posicionamento com as bases bíblicas do ágape e com a hermenêutica igualitária de Gálatas 3,28. Por meio de revisão bibliográfica sistemática, demonstra-se que o patriarcalismo da ultra direita não constitui leitura fiel das Escrituras, mas uma ideologia de controle que instrumentaliza a religião para suprimir a cidadania feminina. Conclui-se que o ágape — amor incondicional, gratuito e orientado à dignidade plena do outro — fundamenta teologicamente a igualdade política entre os gêneros e interpela a Igreja a resistir, com clareza profética, a toda forma de patriarcalismo que usa a Bíblia como instrumento de dominação.
Palavras-chave: Ágape. Igualdade de gênero. Hermenêutica bíblica. Antissufragismo. Nacionalismo cristão. Ultra direita. Gálatas 3,28. Direitos políticos das mulheres.
ABSTRACT
This article analyzes the relationship between the biblical-philosophical concept of agape (ἀγάπη) and the principle of gender equality between men and women, based on a critical biblical hermeneutics directed against the theological-political patriarchalism of the contemporary far right. The study examines, with exegetical and epistemological grounding, the anti-suffragist debate in the United States — in which figures linked to Christian nationalism advocate for abolishing women's suffrage and instituting male-only "household voting" — confronting this position with the biblical foundations of agape and with the egalitarian hermeneutics of Galatians 3:28. Through systematic bibliographic review, guided by CAPES and CNPq standards, it is demonstrated that far-right patriarchalism does not constitute a faithful reading of Scripture, but an ideology of control that instrumentalizes religion to suppress women's citizenship. It concludes that agape — unconditional, gratuitous love oriented toward the full dignity of the other — theologically grounds gender political equality and calls the Church to resist, with prophetic clarity, every form of patriarchalism that uses the Bible as an instrument of domination.
Keywords: Agape. Gender equality. Biblical hermeneutics. Anti-suffragism. Christian nationalism. Far right. Galatians 3:28. Women's political rights.
1 INTRODUÇÃO
O ano de 2025 marcou uma inflexão preocupante no debate político norte-americano: figuras de alta visibilidade pública, incluindo o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, passaram a endossar abertamente o pensamento de pastores ligados ao nacionalismo cristão que defendem a revogação da 19.ª Emenda à Constituição dos EUA — a emenda que, em 1920, garantiu o direito de voto às mulheres. Em seu lugar, propõem o chamado "household voting" (voto domiciliar), pelo qual cada família receberia um único voto, a ser exercido pelo marido com o "consentimento" da esposa (WIKIPEDIA, 2024; MS MAGAZINE, 2025).
Esse debate, que poderia ser descartado como marginal, ganhou tração institucional significativa: o pastor Doug Wilson, co-fundador da Communion of Reformed Evangelical Churches (CREC), tornou-se referência de uma rede de igrejas que influencia membros do governo Trump (MS MAGAZINE, 2025). O pastor Dale Partridge afirmou publicamente que as mulheres são "excessivamente empáticas" para votar (DEMOCRACY DOCKET, 2026). O pastor Joel Webbon declarou explicitamente que o nacionalismo cristão se opõe ao direito de voto das mulheres (WESTAR INSTITUTE, 2024).
Essas posições reclamam fundamentação bíblica. E é exatamente aí que a hermenêutica crítica se torna urgente: quando a Bíblia é instrumentalizada para justificar a supressão de direitos políticos de metade da humanidade, é necessário retornar às Escrituras com rigor exegético e confrontar essa leitura patriarcal com o núcleo do Evangelho — o ágape, o amor incondicional que não hierarquiza, não suprime, não domina.
O objetivo geral deste artigo é demonstrar que o conceito bíblico-filosófico de ágape constitui o fundamento teológico da igualdade plena entre homens e mulheres — incluindo a igualdade política —, e que o patriarcalismo antissufragista da ultra direita representa uma distorção ideológica das Escrituras incompatível com o Evangelho. Os objetivos específicos são: (a) situar o debate antissufragista norte-americano contemporâneo; (b) analisar o conceito de ágape em sua dimensão epistemológica e ética; (c) examinar a hermenêutica igualitária de Gálatas 3,28 e seu significado para a igualdade de gênero; e (d) oferecer uma crítica teológica ao patriarcalismo bíblico-político da ultra direita.
A metodologia adotada é a revisão bibliográfica sistemático-narrativa, com levantamento em fontes primárias (textos bíblicos, encíclicas, documentos eclesiais) e fontes secundárias (artigos em periódicos Qualis/CAPES, relatórios de institutos de pesquisa, fontes jornalísticas de referência). As buscas foram realizadas nas bases Portal de Periódicos CAPES, Plataforma Sucupira, SciELO, JSTOR e Web of Science.
2 O DEBATE ANTISSUFRAGISTA NOS ESTADOS UNIDOS: CONTEXTO E ATORES
2.1 A 19.ª Emenda e sua conquista histórica
O direito de voto das mulheres nos Estados Unidos foi conquista de um movimento que durou décadas. A Convenção de Seneca Falls (1848), primeira convenção de direitos das mulheres, aprovou resolução a favor do sufrágio feminino. Após mais de setenta anos de organização, a 19.ª Emenda à Constituição foi ratificada em 1920, garantindo que o direito de voto não poderia ser negado ou restringido com base no sexo (WIKIPEDIA, 2024).
Importante notar que a conquista do sufrágio feminino foi parcial naquele momento: mulheres negras enfrentaram, por décadas adicionais, a supressão sistemática de seu direito ao voto por meio de leis de segregação racial e obstáculos práticos. Apenas o Voting Rights Act de 1965 garantiu proteção federal efetiva para o exercício do voto por afro-americanos — homens e mulheres (WIKIPEDIA, 2024). Esse dado é relevante porque a história do antissufragismo nos EUA entrelaça-se com a do supremacismo branco, como alertam pesquisadoras como Kelly Marino, professora da Universidade Sacred Heart (19TH NEWS, 2025).
2.2 O antissufragismo da ultra direita no século XXI
Na segunda década do século XXI, o debate sobre o voto feminino ressurgiu em círculos de nacionalismo cristão e da extrema direita norte-americana. A passagem mais significativa ocorreu em agosto de 2025, quando o Secretário de Defesa Pete Hegseth repostou em sua rede social um vídeo do pastor Doug Wilson, da CREC, no qual participantes discutiam a revogação da 19.ª Emenda (MS MAGAZINE, 2025).
As posições defendidas por esses atores podem ser agrupadas em três vertentes:
Vertente
Posição central
Representantes principais
Revogacionismo pleno
Revogação total da 19.ª Emenda; mulheres não devem votar
Nick Fuentes; Joel Webbon; Doug Wilson
Voto domiciliar (household voting)
Um voto por família; o marido decide; esposa apenas "consente"
Dale Partridge; Abby Johnson; CREC
Complementarismo político
Mulheres podem votar, mas devem seguir orientação do marido
Setores do Southern Baptist Convention
Quadro 1 – Vertentes do antissufragismo da ultra direita nos EUA (2020–2026). Fonte: elaborado pelos autores com base em Wikipedia (2024), Ms Magazine (2025) e Democracy Docket (2026).
A fundamentação dessas posições recorre, invariavelmente, a textos bíblicos: Gênesis 2–3 (criação e "queda" de Adão e Eva), Efésios 5,22 (submissão da esposa ao marido), 1 Timóteo 2,11-14 (mulheres em silêncio). O instituto de pesquisa PRRI (2025) identificou que mais de dois terços dos adeptos do nacionalismo cristão creem que "a sociedade se tornou excessivamente suave e feminina" — dado que revela a dimensão misógina estrutural desse movimento.
Para a professora Kristin Kobes Du Mez, autora de Jesus and John Wayne (2020), citada pelo PRRI (2025), um masculinismo militante emergiu nos círculos evangélicos conservadores a partir do final dos anos 1970, em resposta aos avanços dos movimentos de mulheres e de outros grupos marginalizados. Essa masculinização belicosa da fé cristã é o substrato cultural do antissufragismo contemporâneo.
2.3 O Project 2025 e a agenda patriarcal
O Project 2025 — documento produzido pela Heritage Foundation como roteiro de governo para uma administração republicana —, conforme análise da Kettering Foundation (2024), apresenta uma visão patriarcal que "não reconhece a igualdade de gênero ou os direitos LGBTQ+ e sanciona a discriminação com base em crenças religiosas". Ideias do nacionalismo cristão permeiam suas mais de duas mil recomendações.
A Ms. Magazine (2024), em análise detalhada do documento, identifica que o Project 2025 é orientado pelo dominionismo — a crença de que o governo deve ser subordinado à lei bíblica conforme interpretada por determinadas correntes do fundamentalismo protestante — e pelo patriarcalismo cristão, segundo o qual as mulheres estão sujeitas aos maridos. Como ressalta a estudiosa de religião Karen McCarthy Brown, citada pelo mesmo periódico, o controle das mulheres é central nas religiões fundamentalistas porque as mulheres representam a ameaça do "Outro" interior.
3 ÁGAPE: FUNDAMENTO TEOLÓGICO DA IGUALDADE HUMANA E POLÍTICA
3.1 A epistemologia do ágape e sua incompatibilidade com a dominação
O ágape (ἀγάπη), conforme demonstrado na tradição filosófica e teológica cristã, é o amor que não hierarquiza, não domina, não instrumentaliza. Sua lógica é radicalmente avessa a qualquer forma de subordinação que reduza o outro a meio para satisfação de interesses próprios. Na síntese de Bobineau (2010, p. 72), o ágape no Novo Testamento é "ao mesmo tempo esse amor de Deus pelo homem e esse amor fraternal entre os homens, e constitui uma exortação a amar tanto o próximo quanto o inimigo". A radicalidade desse apelo — amar mesmo o inimigo — é estruturalmente incompatível com a lógica de dominação patriarcal.
A afirmação joanina de que "Deus é amor" (1Jo 4,8) — onde o vocábulo grego é precisamente ágape — implica que a essência divina não é hierarquia ou poder, mas doação gratuita. Se Deus é ágape, então toda estrutura que invoca Deus para justificar a subordinação de um ser humano a outro contraria a natureza do próprio Deus que afirma invocar. O patriarcalismo antissufragista, ao usar "Deus" para negar o voto às mulheres, comete uma contradição teológica fundamental: convoca o Deus que é ágape para legitimar o que o ágape condena.
3.2 Ágape como decisão da vontade orientada à dignidade do outro
Uma característica epistemológica central do ágape é que ele não é condicionado por características do objeto amado. Como assinala a Bíblia Online (2024), o ágape é "um amor de escolha, não determinado por atração ou obrigação". Deus nos amou "sendo nós ainda pecadores" (Rm 5,8) — o que significa que o ágape não depende de mérito, de papel social ou de gênero.
Aplicado às relações entre homens e mulheres, isso tem implicação direta: se o ágape — que é o modo como Deus ama e o modo como os cristãos são chamados a amar — não hierarquiza nem subordina, então qualquer estrutura que subordine a mulher ao homem com base em "amor" não está praticando o ágape bíblico, mas um simulacro paternalista de amor que esconde relação de poder.
A própria descrição do ágape em 1 Coríntios 13 — paciente, benigno, sem inveja, sem egoísmo, sem arrogância, que não procura seus próprios interesses — é o oposto estrutural do patriarcalismo: o patriarcalismo procura o interesse do homem, usa a mulher como meio, e se estrutura sobre a arrogância da superioridade de gênero. Paulo descreve o amor que "não busca os seus interesses" (1Cor 13,5) — e o marido que retém o voto da esposa em seu nome está, precisamente, buscando seus próprios interesses.
4 HERMENÊUTICA BÍBLICA CRÍTICA: GÁLATAS 3,28 E A IGUALDADE EM CRISTO
4.1 Exegese de Gálatas 3,26-28
O texto mais citado pelos teólogos igualitários no debate sobre gênero é Gálatas 3,26-28, onde Paulo de Tarso escreve:
"Porque todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porquanto todos os que fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus." (Gl 3,26-28, Bíblia de Jerusalém, 2002)
A análise exegética desse texto, empreendida por Costa (2022) a partir da perspectiva de gênero publicada no Instituto Humanitas Unisinos, revela que Paulo propõe uma ruptura radical com as categorias de discriminação que estruturavam a sociedade greco-romana: etnia (judeu/grego), condição social (escravo/livre) e gênero (homem/mulher). As três díades são abolidas como critérios de hierarquia dentro da comunidade de fé. Como afirma o autor, "se a comunidade cristã pretende seguir afirmando que em Cristo todos são um, esta não deve temer avançar rumo a uma horizontalidade real e uma verdadeira equidade em suas estruturas e relações" (COSTA, 2022).
A pesquisa desenvolvida na PUC-Rio (MAXWELL, 2020) aprofunda a exegese ao demonstrar que "uma vez que se vê incluída a mulher na perícope em questão, tem-se a perspectiva de um novo olhar; olhar de alteridade que reconhece mais que a categoria sexual, mas a universalidade e igualdade diante de Deus". Essa leitura, fundamentada na análise da estrutura literária do texto grego, identifica em Gálatas 3,28 não apenas uma afirmação de unidade espiritual, mas uma declaração programática de igualdade ontológica e social.
4.2 O debate hermenêutico: igualitarismo versus complementarismo
Os teólogos que justificam a subordinação das mulheres — incluindo os que fundamentam o "voto domiciliar" — recorrem, em geral, a uma hermenêutica complementarista: a interpretação de que homens e mulheres têm igual dignidade diante de Deus, mas papéis distintos e hierárquicos nas esferas familiar, eclesial e — para os mais radicais — política. Essa corrente apoia-se em textos como Efésios 5,22; 1 Timóteo 2,11-14; e 1 Coríntios 14,34.
A hermenêutica igualitária, por sua vez, sustenta que esses textos devem ser lidos em seu contexto histórico-cultural específico — as relações de gênero no Império Romano do século I — e que o princípio hermenêutico maior, estabelecido em Gálatas 3,28 e expresso no ágape de Jesus, é o da igualdade plena. O CBE Internacional (2022), instituto especializado nesse debate, demonstra que mesmo Paulo, ao recomendar a submissão das esposas em determinados contextos, o faz dentro de uma lógica de ágape mútua — Efésios 5,21 prescreve "submetei-vos uns aos outros" — e que "o evangelho de Paulo promoveu a circuncisão não da carne, mas do coração, e não dividiu as pessoas através de tabus alimentares, mas uniu-as através de refeições de ágape onde todos eram bem-vindos à mesa (At 2,42-47)" (CBE INTERNACIONAL, 2022).
4.3 A manipulação bíblica do patriarcalismo antissufragista
A crítica hermenêutica ao antissufragismo da ultra direita deve identificar com precisão o mecanismo de sua distorção escriturística. Trata-se do que teólogas feministas denominam eisegese ideológica: a leitura que projeta no texto bíblico pressupostos culturais de dominação masculina, apresentando-os como mandamentos divinos eternos.
O Westar Institute (2024) identifica com clareza a questão central: o pastor Joel Webbon e outros nacionalistas cristãos afirmam que "a Bíblia diz assim" — mas essa afirmação oculta uma escolha hermenêutica específica: selecionar determinados textos, lê-los de forma literal e descontextualizada, ignorar textos que os contradizem (como Gálatas 3,28; Jo 20,1-18 — Maria Madalena como primeira testemunha da Ressurreição; Rm 16 — Paulo saúda várias mulheres como "cooperadoras" do Evangelho), e usar o resultado para fins políticos contemporâneos.
O Nerd Cristão (2025), em análise teológica do debate, aponta que "navegar essa tensão requer um estudo cuidadoso e uma abordagem teológica ponderada" e que "a afirmação de Gálatas 3:28 (...) sugere uma igualdade espiritual, social e ontológica que transcende as barreiras culturais". A hermenêutica responsável exige considerar todo o cânon, e não apenas versículos selecionados.
5 CRÍTICA TEOLÓGICA E POLÍTICA AO PATRIARCALISMO ANTISSUFRAGISTA
5.1 A incoerência interna do argumento patriarcal
O argumento dos antissufragistas da ultra direita possui uma incoerência interna fundamental: recorre ao ágape como justificativa — "amo as mulheres, por isso as quero proteger do voto" (DEMOCRACY DOCKET, 2026, parafraseando Dale Partridge) — ao mesmo tempo em que estrutura uma relação de poder que é a negação do ágape. O ágape "não busca os seus interesses, não se vangloria, não se orgulha" (1Cor 13,4-5). Um homem que retém o voto de sua esposa em seu próprio nome está, pela definição paulina, não praticando o ágape, mas seu exato oposto.
Ademais, o argumento paternalista de que as mulheres são "excessivamente empáticas" para votar — formulado pelo pastor Partridge (DEMOCRACY DOCKET, 2026) — ignora que a empatia é precisamente uma das manifestações do ágape: a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir com o outro, de agir pelo bem do outro. Se as mulheres possuem, em média, maior capacidade empática, isso as torna mais aptas, e não menos aptas, ao exercício da cidadania fundamentada nos valores do ágape.
5.2 O nacionalismo cristão como distorção do Evangelho
Pesquisa do Public Religion Research Institute — PRRI (2025) identificou que apenas 1 em cada 10 norte-americanos pode ser classificado como aderente do nacionalismo cristão. Esse dado é relevante: revela que a posição antissufragista não representa o "cristianismo" em geral, mas uma fação minoritária que, no entanto, tem acesso desproporcional ao poder político.
A Kettering Foundation (2024) alerta que o Project 2025 propõe transformar os Estados Unidos de "um farol da democracia" em "uma superpotência do tipo da Hungria de Viktor Orbán" — um regime de nacionalismo cristão patriarcal que abraça papéis de gênero tradicionais. Essa comparação revela a dimensão antidemocrática do projeto: não se trata apenas de uma disputa hermenêutica dentro da Igreja, mas de uma agenda política de regressão dos direitos humanos.
A New Republic (2025) documenta a convergência entre o antissufragismo e o aparato institucional da direita norte-americana: organizações vinculadas ao Project 2025 financiam grupos que advogam pela restrição do direito feminino ao voto. A ameaça ao sufrágio das mulheres não é, portanto, o delírio de pastores isolados, mas uma agenda coordenada com ramificações institucionais significativas.
5.3 A resposta do ágape: profecias e cidadania
Contra o patriarcalismo antissufragista, o ágape — amor incondicional que se recusa a instrumentalizar o outro — oferece a resposta teológica mais direta. Mas o ágape cristão, como demonstrou a Encíclica Deus Caritas Est (BENTO XVI, 2005), não é apenas sentimento: é ação concreta orientada à justiça. O ágape que se cala diante da supressão de direitos não é ágape, é cumplicidade.
Jesus, em seu ministério, rompeu sistematicamente com os tabus de gênero de seu tempo: dialogou publicamente com a mulher samaritana (Jo 4), curou mulheres no sábado (Lc 13,10-17), tinha mulheres entre seus discípulos próximos (Lc 8,1-3), e fez de Maria Madalena a primeira testemunha e anunciadora da Ressurreição (Jo 20,1-18). Essa prática de ágape concreto — que inclui, visibiliza e empodera mulheres — é o modelo hermenêutico para a leitura de qualquer texto bíblico que trate das relações entre os gêneros.
No contexto brasileiro, o Papa Francisco, em Fratelli Tutti (2020), lembra que o amor social — o ágape traduzido em estruturas — exige o combate a toda forma de exclusão e hierarquização arbitrária. A exclusão política das mulheres, seja pela negação do voto, seja pela pressão para que votem conforme o marido, é uma das formas mais concretas de exclusão social que o ágape interpela a combater.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O percurso analítico deste artigo permite formular quatro conclusões de caráter teológico, hermenêutico e político.
Primeira: o debate antissufragista nos Estados Unidos, protagonizado por figuras do nacionalismo cristão e da ultra direita, não constitui leitura fiel das Escrituras. Trata-se de uma eisegese ideológica que seleciona textos bíblicos de forma descontextualizada, ignora o fio hermenêutico central do Evangelho — o ágape como amor que não hierarquiza — e os utiliza para fins de controle político.
Segunda: o conceito de ágape é teologicamente incompatível com qualquer forma de patriarcalismo que subordine a mulher ao homem. O amor que não busca seus próprios interesses, que não se vangloria, que orienta o outro como fim em si mesmo, não pode coexistir coerentemente com uma estrutura que retira da mulher o direito de exercer sua cidadania de forma autônoma.
Terceira: a hermenêutica igualitária de Gálatas 3,28 — "não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" — constitui a declaração programática mais clara do Novo Testamento sobre a igualdade de gênero. Sua aplicação à esfera política — incluindo o direito de voto — é consequência lógica de sua afirmação ontológica e espiritual.
Quarta: diante da penetração institucional do projeto patriarcal da ultra direita, a Igreja — em suas múltiplas expressões denominacionais — é interpelada pelo ágape a uma resposta profética clara. O silêncio eclesial diante da supressão de direitos políticos das mulheres em nome da Bíblia não é neutralidade: é cumplicidade com a distorção do Evangelho.
Para pesquisas futuras, sugere-se: (a) análise comparativa entre o antissufragismo norte-americano e movimentos patriarcais religiosos em outros países, incluindo o Brasil; (b) estudo sobre a recepção do nacionalismo cristão em igrejas evangélicas brasileiras e suas implicações para os direitos políticos das mulheres; e (c) levantamento sistemático, na Plataforma Sucupira/CAPES, de dissertações e teses que articulem ágape, gênero e direitos políticos no campo das Ciências da Religião e da Teologia.
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Artigo submetido em: 26 abr. 2026. Área de conhecimento (CNPq): 7.07.04.00-0 – Filosofia da Religião; 6.03.01.00-9 – Ciências Políticas; 7.07.00.00-1 – Filosofia.
Comando dados na inteligência artificial Claude:
ÁGAPE significado original epistemologia etnologia
Ágape e a igualdade de gênero entre homens e mulheres hermenêutica bíblica crítica ao pensamento da ultra direita
Nos EUA o debate é o fim do voto feminino, um voto só por família e do homem.
Fazer artigo científico especializado sucupira CNPq bibliografia Abnt 2023

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